Tudo aqui me pertence. Muahahah ;D

Saudade

2º Capítulo

Depois de uma noite passada maioritariamente a navegar na internet em vez de dormir. Não sei bem porquê, mas estava ansiosa. Não acho possível que seja por causa dos novos alunos, mas nunca fiando. Às vezes a nossa mente prega-nos truques, e eu sou a prova viva disso: Quando tinha 5 anos jurava a pés juntos que tinha visto um OVNI, mas acabei por descobrir que era apenas um balão prateado, e enfim como era de noite acabei por ver o impossível; também ajudou o facto de ter visto o filme E.T. no dia anterior. Mas enfim, essas são outras histórias.

Assim como tinha combinado com a Margarida, acabei por me levantar mais cedo e ligar a câmara para assim ver a sua escolha de indumentária. Quando primeiro liguei a câmara vi uma Margarida em apenas calções e camisa de dormir com um ar ensonado. 'Não conseguia dormir.'Escreveu ela, eu decidi por bem não referir que o mesmo me tinha acontecido. 'Mostra lá então isso.' Escrevi e ela imediatamente desapareceu para reaparecer com uma indumentária. Para ser curta, basicamente ela tinha três indumentárias pensadas. A primeira consistia num vestido preto curtíssimo com botas pretas de salto alto e um lenço vermelho, para dizer a verdade tive de olhar duas vezes para aquilo, ela tinha mesmo pensado em levar aquela coisa vestida? 'Pareces uma rameira de 5ª categoria, mostra-me outro.'Escrevi, e ela fez beicinho mas a 'coisa' acabou por desaparecer da minha vista. O 2º conjunto era um vestido cor-de-rosa com um decote recto e mangas compridas, o vestido tinha motivos geométricos estampados e para o acompanhar tinha um lenço simples branco juntamente com uma gabardina vermelha e botas pretas. O conjunto em si não estava mau mas pedi para ver o outro. O 3º conjunto consistia nuns mini calções pretos de cintura subida com uma camisa com folhos e sabrinas. 'O que é que queres parecer com isso, a Pixie Lott? Para além disso é Inverno, não vale a pena pores a tua saúde em risco só por causa de dois ou três snobs. Leva o segundo.'Quando leu aquilo fez beicinho de novo mas acabou por levar aquele que lhe tinha dito. Enfim, a Margarida era uma pessoa muito fácil de convencer.

Agora, era hora de eu sair senão queria ter problemas com a professora de Português que não tolerava qualquer tipo de atrasos. Suponho que o argumento de 'tive que ajudar a minha melhor amiga a arranjar o que vestir', não resultasse com ela. Olhei-me mais uma vez ao espelho, estava normal como de costume. Estava a usar um vestido/túnica verde simples de manga curta com uma camisa branca de gola alta por baixo e meias cinzentas com pintas pretas. Para além disso trazia umas botas UGG pretas e um casaco de malha grossa de gola alta bege escuro. Enfim, o normal. Porque é que haveria de me andar a aperaltar só porque iam entrar 4 alunos novos na minha turma? Estou-me completamente a cagar para as primeiras impressões.

Assim saí de casa um tanto ou quanto apressada, mas mal tinha dado dois passos e… Raios me partam, esqueci-me completamente da carteira! E lá tive de voltar para trás para ir buscar a minha carteira XXL castanha. E certifiquei-me que desta vez trazia tudo. Assim pude por fim encaminhar-me para o colégio.

Se me pedissem para que descrevesse o colégio Campos Melo numa só palavra, penso que a primeira que me viria à mente seria algo nas linhas de 'majestoso', 'conservador', 'magistral' ou apenas 'grande'. Na verdade, eu andava lá já há 4 anos e ainda havia alguns sítios que eu desconhecia! Também não é a melhor ideia andar por aí sozinha a explorar o edifício. Acreditem que não ia ser bonito de ver aquilo que provavelmente iria encontrar. Primeiro porque como aquele colégio era maioritariamente frequentado por gente rica, isso queria dizer que os seus estudantes tinham dinheiro que chegasse e sobrasse para as suas necessidades. E o que é que eles faziam com as sobras? Digamos que não as iam colocar no banco com toda a certeza. Por isso era bastante fácil dar de caras com um bando de miúdos ricos completamente drogados logo pela manhã. Graças a Deus que eu sabia mais ou menos que tipo de zonas estes frequentavam, gostavam particularmente da parte de trás da escola e do muro que separava o colégio do pinhal. Nem o Ricardo nem a Margarida alguma vez me deixaram ir para aqueles lados. 'Sinceramente aqueles dois às vezes parecem meus pais. Ainda por cima a Margarida! Sei muita mais sobre a vida do que ela alguma vez irá saber!' Resmunguei mentalmente enquanto passava pelo portão de entrada e cumprimentava o porteiro já meu conhecido.

Olhando para o relógio reparei que apenas faltavam 4 minutos para tocar e tendo em conta que a minha sala ainda ficava um bocado longe ia ter de me despachar se não queria chegar atrasada. Depois de correr um bocado e de furar várias multidões (como sou pequena quase ninguém me vê para minha grande infelicidade) consegui chegar à malfadada sala de Português, ainda não tinha tocado mas a maioria da turma já lá estava, digo maioria porque não havia sinal dos alunos novos.

"Bolas Cat, estava a ver que te tinhas perdido!" Comentou a Margarida enquanto me olhava preocupadamente visto que neste momento estava a tentar regularizar a minha respiração. Pois, é que eu sou asmática e por isso não convém que comece assim a correr do nada sem aquecimento prévio como aconteceu há bocado. Imediatamente o Ricardo estava ao meu lado e a vasculhar na minha mala pela minha bomba.

"Idiota, se havia alguma necessidade de andares a esforçar-te desta forma." Comentou ele com um tom que se assemelhava ao do meu pai, no entanto quando ele encontrou a bomba na minha 'mala sem fundo' eu já estava a respirar normalmente. "Vês, estou óptima!" Disse-lhe enquanto o despenteava. Ele rolou os olhos. O Ricardo tinha os olhos castanhos chocolate e o cabelo castanho claro tipo Super-homem ondulado e com direito a franja com ondinha! Normalmente passava a vida a meter-me com ele por causa disso.

"Faz como quiseres Cat…" Disse ele metendo as mãos nos bolsos e olhando em redor. "Aqueles parvalhões estão a demorar um bocado, eles sabem bem como é que é a stôra." Comentou ele enquanto se dirigia para o lugar. Eu fui mais rápida e sentei-me lá antes que ele pudesse. "Uh? O que é que estás aqui a fazer?" Perguntou. Mas tirou a mochila dele da outra cadeira e sentou-se ao meu lado. "A Margarida quer que um dos alunos novos se sente ao lado dela." Sussurrei-lhe ele assentiu.

"Desejo-lhe toda a sorte do mundo então. O Bernardo está completamente apanhado pela Laura, pelo menos é o que o Francisco me passa a vida a dizer, e esse para além de ter um feitio 'complicado' gosta da Mariana." Eu ouvi atentamente absorvendo a informação. "Ou achas que a Margarida decidiu virar-se para as mulheres?" Eu ri-me e ele também, quem sabe, aposto que haveria mulheres que estariam interessadas nela. "Tenho pena, acho que a Margarida precisa mesmo de uma relação estável." Comentei e o Ricardo assentiu vagamente.

"Eu acho exactamente o mesmo, mas ela tem de perceber que não há por aí nenhum príncipe encantado montado num cavalo branco à espera dela ao virar da esquina. No máximo o que pode encontrar é um prostituto de quinta categoria, mas duvido que a Margarida olhasse para ele sequer." Eu ri-me do comentário mas assenti. A Margarida ainda era demasiado apegada às aparências, e sem dúvida que para ser o candidato ideal este tinha de ter bastante dinheiro. Também não a podia culpar, era a maneira como tinha sido ensinada.

Por fim a porta abriu-se e entrou a professora de Português seguida dos tais tão esperados 4 alunos novos.

Sinceramente, posso dizer que a minha turma é um aglomerado de idiotas. Melhor acho que a minha turma é um verdadeiro poço do desespero. Vou pedir transferência está decidido.

Quando os 4 alunos entraram pela aquela porta, eu acho que foi como se os Tokio Hotel tivessem entrado numa sala cheia com elementos do seu grupo de fãs. Enfim aquilo foi sussurros por todo o lado, risinhos e até assobios. Eu comecei a olhar para os lados só para ter a certeza de que ninguém tirava a roupa e se lançava aos pés de um deles gritando coisas como 'Bernardo eu amo-te!' 'Francisco take me to your house and fuck me all night long'. Graças a Deus que não chegámos a estes extremos. O grande problema é que aqueles supostos sussurros não eram bem sussurros. Eu chamar-lhe-ia sussurros gritados. Estes são tipo daqueles sussurros que se te forem ditos perto do ouvido são bem capazes de te rebentarem com o tímpano. Ora este fenómeno apenas acontecia em situações de grande euforia e/ou em locais com música muito alta. Penso que se verifica a primeira situação.

Olhei para o lado apenas para ver o Ricardo com a cabeça em cima da mesa e com os braços a tapar-lhe a visão daquela cena deplorável. A fingir que está a dormir? Boa ideia. Devia ter-me lembrado dessa.

"Meninos por favor façam pouco barulho." Disse a stôra de Português mas sem grande efeito. Os novos alunos pareciam bastante divertidos com toda aquela situação. Analisando-os bem consegui identificar perfeitamente o Bernardo, com o seu cabelo preto desgrenhado e olhos igualmente negros e o Francisco que tinha uns inconfundíveis olhos violeta e cabelo castanho mais ou menos no mesmo estilo que o amigo, apesar de tudo, o Francisco possuía um estilo muito mais sofisticado, enquanto que o Bernardo usava roupas casuais (camisola com capuz, calças de ganga e sapatilhas), o Francisco usava uma camisa às riscas branca com um colete castanho desapertado, calças bege, sapatilhas de camurça e uma gabardina bege também aberta. Decidi voltar a minha atenção para as raparigas à minha frente. Uma, e que reconheci como sendo Mariana, tinha o cabelo curto ruivo e uns olhos castanhos penetrantes e atentos, o estilo dela também era bastante irreverente, pelo que consegui observar vestia um casaco estilo militar verde tropa, calças justas pretas e botas de combate pretas, a outra rapariga Laura, tinha o cabelo castanho bastante comprido e olhos castanhos inocentes, usava umas calças de ganga, uma camisa branca por baixo de uma camisola rosa com decote em V e botas castanhas. "SILÊNCIO!" Acabou por gritar a Professora de Português que não estava habituada a ser desrespeitada. Imediatamente fez-se silêncio e esta com um sorriso de orgulho passou a falar para os novos alunos. "Espero que se integrem bem na turma, sei que esta situação é um bocado complicada, mas tenho plena confiança nas vossas capacidades. Para além disso, a turma irá ajudar certo?"

"CLARO!" Ah, adoro quando falamos em coro tais cãezinhos amestrados. "Óptimo, este é o Bernardo, o Francisco, a Laura e a Mariana. Por favor sentem-se onde houver lugares vagos." As duas raparigas, Mariana e Laura, sentaram-se as duas numa mesa desocupada para desespero da população masculina. O Bernardo sentou-se atrás de mim e do Ricardo perto de um rapaz de óculos chamado Casimiro, o Francisco olhou para as carteiras em seu redor e como se se tivesse apercebido do olhar de cordeirinho que Margarida lhe lançava sentou-se ao seu lado. Eu e o Ricardo olhámos um para o outro e suspirámos.

"Parece-me que ela conseguiu o que queria." Comentei. Ele assentiu e virou-se para trás.

"Bem-vindo ao inferno, meu." Disse para o Bernardo. Eu não consegui perceber o que ele disse em resposta, mas sei que a stôra se apercebeu porque imediatamente repreendeu o Ricardo.

Tenho um pressentimento de que este ano as coisas vão ficar interessantes, com estes 4 aqui na turma.

A aula lá se passou, um bocado mais animada e barulhenta que o costume se me é permitido observar. Pelo que pude ver parece-me que a filosofia de que todos temos uma criança bem dentro de nós confirmou-se hoje mesmo. Tal como as crianças, quase todos os alunos da minha turma querem 'brinquedos' novos. Como excepções tenho eu, o Ricardo e o Casimiro que estava mais interessado em ler os Maias do que em tentar fazer conversa com o colega do lado. Parece-me que o Bernardo fez de propósito, o que me leva a pensar que ele realmente é bastante inteligente. Correm por aí rumores que ele manda mais na companhia do que o próprio pai. Olhando para ele realmente dá-me a sensação de que ele sabe aquilo que faz.

Por fim a campainha, sendo a mulher leal que é, nunca falha e à hora marcada tocou livrando-me daquele pesadelo. Resumidamente, a minha ideia era pegar na minha malinha e nas minhas perninhas e fugir dali o mais depressa possível. E quase consegui não fosse a minha melhor amiga.

"Cat! Anda cá, quero-te apresentar o Francisco." Chamou. Enfim, o plano foi por água abaixo disso podem estar certos. Assim retrocedi para poder ser assim apresentada ao Francisco. Como se eu não soubesse quem ele era.

"Este aqui é o Francisco de Sá. Francisco, esta é a Catarina Salazar." Disse ela apresentando-nos. Eu acenei com a mão um bocadinho esquisitamente. "Olá." Já referi que sou péssima com apresentações?

"Olá. O teu pai é o director do hospital não é?" Perguntou-me enquanto olhava em volta, por momentos vi os olhos focarem-se em ambas as raparigas que vieram com ele, e que de momento estavam rodeadas por rapazes, podia jurar que o sorriso charmoso dele lhe tinha falhado por breves segundos. Parece-me que afinal o Ricardo sempre tinha razão.

"Sim. É esse mesmo." Comentei e ele assentiu. De repente senti uma mão pousar-me no ombro. Olhando para trás vi o Ricardo a sorrir-me. "Estou a ver que a Margarida já anda a fazer de relações públicas." Comentou.

"E sou óptima nisto! Não achas Cat?" Perguntou-me. Ah demasiada gente! Demasiada gente, quero-me ir embora daqui. "Uh, sim claro." Foi aquilo que consegui dizer. O Ricardo riu-se e piscou-me o olho. "Parece-me que é a minha vez então." Comentou e chamou o Bernardo. "Bernardo, esta é a Catarina e a Margarida." Boa, mais um.

"Prazer em conhecer-vos." Disse ele enquanto nos sorria, mas tal como o Francisco o seu olhar manteve-se focado nas duas raparigas que vieram com eles. "Espero que gostem de pertencer à nossa turma!" Disse a Margarida entusiasticamente, eu combati a vontade de rolar os olhos. Como é que ela podia não reparar que eles de momento não estavam para conversas.

"Ah, que fofa!" Digam-me que eu não acabei de ouvir aquilo… De repente vi-me asfixiada num abraço de urso.

Quer dizer, primeiro insultam-me e depois tentam-me asfixiar? Mas que raio?! "Mariana, sabes, eu acho que ela está a ficar sem ar." Ouvi o Ricardo dizer. "Ups! Desculpa!" Uma voz estridente disse e imediatamente fui largada. Quando olhei para cima vi a rapariga ruiva a corar embaraçada. "Peço imensas desculpas, não me contive. Não é todos os dias que se vê um pessoa tão querida como tu." Tirem-me deste pesadelo, por favor.

"Não… Não faz mal. Mariana não é? Prazer em conhecer-te sou a Catarina." Disse quase automaticamente enquanto tentava regularizar a respiração.

"Deixa lá Cat, aqui a Mariana é uma mulher monstro, faz isto a quase toda a gente." Comentou o Ricardo e imediatamente começou a levar pancada da Mariana. Pelos vistos, estes conhecem-se bem.

"Qual mulher monstro qual quê? Sinceramente não és nada cavalheiro, difamar-me assim em frente da rapariga!" E a cena de pancadaria continuou. Quando olhei para o lado vi a Laura que falava agora com a Margarida. Ah, aquele sorriso da Margarida era um dos mais forçados que alguma vez tinha visto.

"Ah, Catarina, esta aqui é a Laura!" Disse-me ela. Eu acenei-lhe fracamente. Sinceramente estou farta de estar aqui. Demasiada gente para o meu gosto, para além disso estão a ser gastas palavras desnecessariamente. "A conversa está óptima mas eu tenho de ir até à biblioteca, tenho umas coisas para tratar. Vemo-nos na próxima aula." Disse e voltei costas. Finalmente paz e sossego.

Realmente, parece-me que vamos ter um ano bastante agitado pela frente.


Review please (: