Disclaimer: esta história se passa em um universo alternativo e os fatos não tem relação com a ordem cronológica do RPG original (ou não). Nathan Yagami pertence a Crismila Rachel. Todos os outros personagens são de autoria própria e não devem ser usados sem permissão. Leia por sua conta e risco.

Gênero: death; dark; histórico;

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Londres, uma fantástica segunda metade do século XIX.

Silêncio. Silêncio era tudo o que se podia ouvir naquele lugar amaldiçoado por tantas histórias lúgubres. Um passo após o outro, eu caminhava lentamente pelos corredores de pedra, amaldiçoando do mais profundo recôndito da minha mente cada pequeno som que ecoava nas paredes de granito, retumbando através dos salões vazios e retornando até mim como se fossem infinitamente mais altos, tão altos quanto qualquer algazarra já criada pela orda fútil de nobres que um dia ali viveram, esquecidos em algum ponto distante de um de século perdido.

As botas de couro resvalavam contra o chão áspero em descompasso com minha própria respiração ofegante – antes por ansiedade do que por qualquer outra coisa – e, em meio a soturnidade melancólica da Torre Branca, até mesmo o leve roçar do tecido chegava até mim como o próprio badalar do Big Ben. Pois a amarga experiência me ensinara que mesmo o mais leve ruído chegava até ele como um sussurrar ao ouvido – céus, aquela coisa ouvia!

Continuei seguindo o rastro de corpos deixados para trás, ocasionalmente aparecendo entre um corredor ou escada – pequenos pontos vermelhos em meio ao cinza do prédio, feitos de sangue e veludo tingido em carmesim. E, embora as lacerações da guerra já devessem ter me preparado para enfrentar aquele tipo de perda, não pude deixar de sentir um faiscar de compaixão por cada vida tirada daquele modo insano, por cada companheiro que não mais veria, que não mais entraria em batalha compartilhando a mesma bandeira e o mesmo uniforme para defender um ideal louco em prol de uma rainha estranha aos nossos olhos.

Eram homens e jovens cheios de sonhos e particularidades. E agora jaziam inúteis no chão – mortos.

E odiei-o por isso também.

Finalmente cheguei ao último andar e, atravessando o átrio, encontrei-o. Estava em pé no centro do pátio, ainda trajando parte do uniforme com que partira meses antes com a Companhia, porém desgastado e sujo, rasgado em várias partes e deixando a mostra sua pele quase translúcida. Suas costas, sempre altivas, estavam levemente arqueadas, segurando entre os braços algum pobre infeliz que por ventura atraíra seu olhar. Os caninos mergulhados na carne do pescoço tornavam agudo o som repugnante do sangue sendo sorvido e espalhando o cheiro férreo e nauseabundo de morte pelo salão.

Que diria Voltaire, quem um dia bravamente condenou esta ordinária crença, se pudesse estar aqui agora, neste século dezenove de razão e ciência, observando as circunstâncias em que me encontro? Também chamaria isto de sandice e lançaria ao fogo do ceticismo uma vez mais os tratados de Dom Calmet? O que eu não daria por algum escrito feito com sobriedade, algum relato sério, trazendo consigo não informações distorcidas pelas sombras do fanatismo, mas redigidas sob a luz racional de autoridades? Entretanto, nesta era em que almas secas buscam incessantemente um toque de fantasia para suas vidas enfadonhas, Carmilla e Varney tornaram-se uma das poucas fontes de fácil acesso. E, infelizmente, repletas de afirmações falsas para melhor agradar ao paladar do leitor sensível, aquele a procura de atos heroicos e romantismo.

Encolhi-me novamente contra o umbral da entrada e apertei a pequena pistola contra o corpo, certificando-me que estava bem firme entre as luvas suadas de couro, extremamente ciente da estaca escondida sob o casaco. Respirando fundo, rezei pela primeira vez em muito tempo, pedindo para que a bala de aço – a única, conseguida as pressas ainda aquela noite – funcionasse e suprimisse as habilidades diabólicas do meu, até então, companheiro. Ao menos por tempo suficiente para cravar a estaca em seu peito e acabar com o tormento de sua alma – e da minha.

Respirei fundo, sentindo o frio das rochas milenares adentrarem por sob as camadas de lã e algodão até atingirem minha pele. Ciente do que deveria fazer, pressionei lentamente o martelo da pistola, tentando fazê-lo de modo tão silencioso quanto possível, porém o suave tinir das molas e do tambor movendo-se para ajustar a bala no lugar me pareceram terrivelmente audíveis. Em um rompante, voltei-me para o centro do cômodo, a arma em riste a fim de atingi-lo enquanto terminava sua refeição macabra. Contudo, antes que o indicador descesse sobre o gatilho, contive-me – ele não se encontrava mais no local.

– Precisa de uma arma mais silenciosa se deseja me pegar desprevenido. – a voz suave veio de algum ponto indefinido, distorcida pelos ecos e protegido pelas sombras a inundar as muitas arestas onde o luar não alcançava.

O silêncio tomou-me por inteiro e nem mesmo o som agonizante de outrora se fazia presente. Soube então que havia deixado escapar minha chance e mantive a arma em riste, observando ao redor na vã tentativa de acostumar meus olhos as sombras e distinguir alguma silhueta ou encontrar a fonte da voz que um dia inflamara com bravura o coração de inúmeros soldados. Caminhando cautelosamente, detive-me sobre o feixe de luz que adentrava uma das muitas janelas a ornar toda a extensão da parede.

– Lembrar-me-ei futuramente. – disse com falsa segurança, aguçando o ouvido para qualquer ruído que pudesse denunciar sua posição e inteiramente ciente de estar exposta sob o luar, mas satisfeita por poder enxergar de onde ele viria e obter alguma possibilidade – ainda que remota – de escapar com vida. Se algum crédito pudesse ser dados às ciganas em East End, um dhampyr enxergava com maestria em locais iluminados – na escuridão, sua visão era perfeita.

– Há muita arrogância em esperar por um segundo encontro. – saiu lentamente por detrás de uma coluna lateral, tão silencioso quanto o caminhar de um gato, trazendo consigo o desafortunado que assassinara minutos antes, arrastando-o como a carcaça de um porco de recém-abatido. – Mas sempre foi uma mulher orgulhosa, não é mesmo? – cruzando os braços, apoiou um dos ombros sobre o pilar, como para apreciar melhor sua obra. Um pequeno sorriso de escárnio escapara dos lábios finos, rubros de sangue fresco, após jogar o corpo inerte do ruivo aos meus pés.

Segurando-me para não gritar e correr ao seu encontro, mordi os lábios com força, a ponto de sentir o gosto férreo inundar minha boca. Smith jazia no chão, seus olhos vidrados denunciando a presença da morte que aos poucos tomava o calor de seu corpo. No chão, uma profusão de vermelho destacava-se mesmo contra o red coat rasgado a altura do pescoço, manchando os fios acobreados de um vermelho carmesim. A réstia de sangue que ficara em suas veias escorria em grossas e escuras gotas pela garganta aberta, sendo sorvida pelas rochas e tornando seu rosto cada vez mais pálido.

A Torre Sangrenta bebera a vida de inúmeros reis e guerreiros. E agora ficaria com a vida de meu amigo também.

– Marechal, o que fizeram ao senhor naquele lugar? - perguntei, forçando-me a desviar o olhar daquela visão e encarar o homem, se ainda podia chamá-lo desse jeito, a minha frente.

– Não está claro, soldado? – ele sorriu genuinamente, abrindo os braços e levantando o rosto como para expressar seu júbilo – Libertaram-me!

– Há apenas soldados mortos aqui, alguns dos quais treinados pessoalmente pelo senhor. – apertei o cabo da colt com mais força – Chama isso de liberdade? Vejo apenas uma chacina.

– Alguém como você não entenderia. - o sorriso em seu rosto sumiu, seus sentimentos agora traduzidos apenas pelo cenho franzido e a voz profunda – Não passa de uma mulher de baixo nascimento.

Uma pequena pontada tomou meu peito ao ouvir aquelas palavras, ditas com tamanho desprezo por quem nunca pareceu se importar com minhas origens. Não pretendia deixar que isso desviasse minha atenção, não naquele momento, mas talvez a surpresa tenha transparecido mais do que gostaria em meu rosto, pois Nathan continuou:

– Toquei em alguma ferida, general? – cada movimento seu era acompanhado pelo cano da pistola enquanto ele andava em círculos ao meu redor, levemente encurvado como um tigre prestes a saltar sobre a presa. – Devo pedir desculpas por isso, curvar-me e tratá-la como a mulher fraca que sempre foi? Talvez eu devesse ser ainda mais cavalheiro e, cavalheiramente, ajoelhar enquanto você enfia essa estaca no meu peito?

– O senhor não compreende…

– E o que você compreende?! – ele gritou, deixando a raiva macular seu rosto e gesticulando abertamente, como nunca fizera antes. – A vida inteira, Beau-Pre, a vida inteira estive preso entre teias de aranha, passando de um fio a outro em um precário equilíbrio para não ser devorado, ou pior – ele estacou, falando em um sussurro – cair no abismo. Mas você nunca conseguiu enxergar isso! Quantas vezes eu não pedi para que fugíssemos? E, no entanto, você via apenas o veneno me maculando aos poucos… – por um momento, pensei em dizer algo para tentar demovê-lo daquela loucura, mas antes que pudesse falar, ele voltou-se para mim novamente – Bem, deixe-me contar algo para amansar seu ego: você estava certa!

Yagami lançou-se ao círculo de luz, caminhando até a janela e abrindo passagem para o duro ar de inverno entrar, ganhando terreno por sob meu casaco e levando o frio intenso de Londres até o último de meus ossos, mas mesmo descalço e com o uniforme rasgado, ele não parecia senti-lo. Apoiado sobre o umbral da janela, o moreno olhava para nossa velha cidade sem realmente parecer enxergá-la, admirando-a melancolicamente. O vento árido fazia seus fios negros ricochetearem na face alva, ainda mais branca por efeito do luar. Um dia eu teria apreciado aquela visão, não fosse o vermelho intenso a lhe macular o peitoral nu sob os restos da camisa de linho.

– Mas agora não há mais teias, general – os pequenos flocos de neve que entravam aderiam a sua pele, entretanto, não derretiam. Ambos de uma palidez féretra, frios como a morte – Estou liberto das correntes que me aprisionavam. Sem exército, sem sobrenome, sem rainha… Livre… Até mesmo da morte!

Pareceu-me por um momento que uma mão fantasma esmagara meu peito até não mais poder e compadeci-me por meu amado, arrependi-me por tudo que poderia ter feito por ele e raiva da maldita guerra que o levara até o oriente, trazendo seu corpo de volta transtornado naquela monstruosidade. As coisas teriam sido diferentes se houvéssemos fugido juntos quando ele me pediu? Afastando meu próprio pensamento, apontei a arma para suas costas. Não sabia quanto tempo aquela sua distração insana continuaria e, por mais que doesse, não poderia deixar que ele continuasse matando pessoas inocentes – e nem que fosse um outro estranho a lhe devolver a paz que fora arrancada de sua alma.

Atirei.

Apenas para sentir a força sobrehumana de seu joelho contra meu estômago menos de um segundo depois. Larguei a arma, agora inútil, e curvei-me contra o chão, sentindo o ar desaparecer de meus pulmões. Eu errara! Errara! De que outro modo teria sido? E agora minha chance estava perdida.

– Não me subestime, soldado. – disse, antes de descer sobre as minhas costas, a força de sua perna ocasionando o som angustiante de ossos se quebrando e espalhando uma dor lancinante pelo meu corpo. – Eu disse que precisava de uma arma melhor.

Erguendo-me pelo pescoço com uma mão, a outra perscrutava rudemente por sob as camadas do meu uniforme, detendo-se com força demasiada – dolorosa – ora sobre as curvas, ora sobre os seios (prova irrefutável da estúpida feminilidade que me acossava – e cuja constatação levou-o apenas a outro meio sorriso malfadado), até que, por fim, encontrou o que buscava – a estaca de teixo. Lançando-a longe e arrastando-me como se fosse uma boneca de pano, começou a caminhar até a janela. Minhas pernas, eu notara, agora estavam inúteis, sem qualquer movimento.

– Isso não é maravilhoso, soldado? – monologava. As unhas, única força que me sobrara, sequer pareciam ter algum efeito sobre o pulso gelado que segurava meu pescoço – Tanto tempo suprimindo meus sentimentos, refreando todos os desejos que me assomavam de loucura por você… – levantou-me até a altura de seus olhos, obrigando-me a encarar o brilho insano e levemente avermelhado, o monstro no qual o homem que eu conhecera e respeitara havia se transformado – ...e por seu corpo também – Passou os dedos levemente pelo meu rosto, detendo-se sobre os lábios, antes de se inclinar e me beijar. Não um beijo carinhoso ou lascivo de um amante, mas voraz, faminto, detendo-se unicamente sobre o sangue que me escapava da ferida no lábio inferior. Com raiva, mordi-o também, porém minha atitude serviu apenas para fazer nascer um sorriso de diversão e menosprezo enquanto seus caninos pontiagudos continuavam a me ferir. – Tanto tempo desperdiçado, general… – o outro disse em um murmúrio, rindo satisfeito ao se afastar. – E, no entanto, bastaram algumas gotas de sangue para me libertar disso também.

– Nathan… – deixei escapar em um sussurro, sentindo o peso de suas palavras e pela primeira vez notando o quão próximos estávamos da amurada. O pouco do ar gélido que subia até o último andar da Torre Branca entrava sofregamente em meus pulmões, tão frio que doía, o próprio peso do meu corpo parecendo querer me afogar, e bagunçava meus cabelos, fazendo-os chicotearem incomodamente meu rosto.

– Perdoe-me, Beatrice – sua voz, fria, sussurrou em meu ouvido – Eu não sou mais humano*.

E então, o abraço do vento.

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N/A:

1.1 - * "I'm not Nathan anymore" teria ficado melhor. Por que isso? Porque sim.

2.1 – So sorry se errei na cor de algum olho ou cabelo, a única coisa que lembrava desses dois é que o Nathan tinha descedência japonesa e a Beatrice, francesa.

3.1 – Nathan lokão e meio emo? Disse Van Hellsing: "Se fizermos com que essa Não-Morta descanse como verdadeira morta […] estará novamente livre".

4.1 – Pois é, eu queria um final heróico com ele sendo morto ou um final gore com ela sendo assassinada. No fim, não consegui fazer nenhum dos dois. Meeh :P

5.1 – Os últimos parágrafos estão uma joça, né? É, eu sei, estão mesmo ¬¬ 500 palavras é meu limite antes de desandar.

6.1 – Curiosidade: a outra opção era trocar o Smith pelo Luke (o loirinho que seria adotado, lembra, Cris?), mas não faria muito sentido.

7.1 – Por que se passa na Torre de Londres? Oras, porque eu quis. Faz sentido? Não.

8.1 – Gomen, não teve drama, ação e nem comédia. Pois é, a mente da sua amiga secreta não funciona fora do âmbito do horror/death/melancolia.

9.1 – Fic não betada, não me responsabilizo.

10.1 – Fidelidade histórica: absolutamente nenhuma. Fica a seu critério.

E é isso, "flores ou pedras?"