Conhecendo R

Talvez eu devesse começar pelo meu primeiro beijo, mas não começarei. Quero começar com o que está mais fresco em minha mente, que aconteceu ontem. Esse beijo foi com o R.

Desde os primórdios, eu sempre senti algo por ele. Não algo como amor, nem algo como gostar. Simplesmente sentia algo. A necessidade gritante de falar com ele, de conversar com ele, de ter contato. Entretanto, a timidez nunca me permitiu.

Foi ele quem deu o primeiro passo. Semana passada, quando eu estava aguardando para fazer uma prova, ele sentou-se ao meu lado, para fazer a sua. Não tinham muitos outros lugares vagos, então não acho que tenha sido proposital. Mas aí ele falou comigo.

Nos falamos tão pouco que mesmo agora, depois de tê-lo beijado, não consigo pensar em sua voz. Consigo lembrar de seu sorriso e das dobrinhas em seu rosto. Ontem lembro de lembrar da sua voz - me chamando de amor, dizendo como eu era bonita, murmurando histórias sobre gatos, ossos quebrados e viagens perto do meu ouvido -, mas hoje já não me lembro dela.

Como foi que a conversa começou mesmo? Acho que ele disse "E aí, você viu o vídeo?" e eu olhei para ele, consciente do nome dele e que ele fazia parte do mesmo grupo de amigos que eu - apesar de nunca nos falarmos -, e perguntei "Que vídeo?". Foi como começou.

R sentava ao meu lado nos intervalos. Nós os passávamos sozinhos, e ele sempre sentava no mesmo bloco de três cadeiras - eu numa ponta e ele na outra -, mesmo que houvessem outros bancos livres. Eu comecei a fazer o mesmo. Apesar disso, nunca nos falamos. Nem um "Oi", nem um "Que horas são?". Nunca nos falamos.

Depois do "Você viu o vídeo?", vieram várias outras palavras. E quando não podíamos falar, nos tocávamos. Ele me cutucava nas costelas, sem que a inspetora visse, e eu devolvia tirando a sandália e puxando os pelos da perna dele com meus dedos do pé. Depois, ele arrastava a ponta da caneta pela minha calça, e eu arqueava as sobrancelhas para ele.

Quase não nos falamos nesse primeiro dia, por causa da prova. Quando cheguei em casa, porém, lhe mandei uma mensagem no whatsapp, pedindo pelo tal vídeo que eu não havia visto. Aproveitei a deixa para puxar papo sobre algumas outras coisas. Não foi nada demais, mas foi o suficiente para que ele falasse comigo na semana seguinte.

Não lembro o que ele disse, mas sei que disse. Passei parte do intervalo com ele e com o nosso grupo de amigos. Lá R sentou ao meu lado - bem pertinho, encostando o ombro no meu. Conversamos e rimos com o resto de nosso grupo, e foi divertido. Um amigo me deu dinheiro, e comprei duas trufas - a de brigadeiro ficou para o R.

No dia seguinte, evoluímos mais um passo. Eu ainda não tinha certeza se ele queria alguma coisa além de amizade comigo e nem se eu queria algo além de amizade com ele. Na saída do colégio, eu quis ficar um pouco mais para vê-lo. Nos desencontramos, e eu estava prestes a desistir. Quando me virei, esbarrei com ele. Sorrimos.

Eu falei rapidamente com ele e mencionei o churrasco de domingo - estávamos combinando-o com os meninos - e ele lembrou-se que precisava pegar o endereço de outro amigo nosso. Então, procuramos os meninos no colégio.

Quando os encontramos, a mão de R esbarrou na minha, ou a minha esbarrou na dele. Ele aproveitou a deixa para entrelaçar nossos dedos. A mão dele estava gelada, e seus dedos eram longos e magros. Achei que eles tremiam um pouco, mas não tive certeza. Ele soltou minha mão para rir de alguma besteira, e eu percebi que sentia falta dela. E percebi que o queria.

Um amigo meu chegou mais ou menos nessa hora, abraçando-me e tirando minha franja da frente do olho. R murmurou algo sobre ir embora, e foi. Eu me perguntei se ele tinha ficado com ciúmes. Observei ele andar até a saída, me perguntando se ele olharia para trás para acenar pra mim. Ele não acenou. Fiquei chateada por ele ir embora sem nem mesmo se despedir de mim, e por ir tão rápido. Então, disse que precisava ir e saí correndo atrás dele.

Ele estava subindo a rua, mais ou menos no ponto onde havíamos nos encontrado. Pensei em gritar seu nome, mas estava com vergonha de chamar tanta atenção. Corri mais e agarrei sua mochila. Ele se assustou, e virou-se para mim. Eu disse "Hey, você saiu sem se despedir. Tchau, até amanhã". Não sabia que reação/resposta esperar dele, mas não fiquei nervosa por isso. Não me importava de estar fazendo papel de boba ou algo do tipo. Só queria falar com ele mais um pouco.

R sorriu. Sua mão encontrou minha mão direita, a elevou na direção de seu rosto e a beijou. Ele sorriu novamente e disse "Tchau, até amanhã".

Saí dos arredores da escola com o coração batendo mais rápido que o normal. Comecei a conversar comigo mesma e me chamar de "Boba estúpida" por estar tão feliz por causa daquilo. Quando achei que não pudesse piorar, beijei minha mão, bem onde ele havia beijado.

O dia seguinte, que foi ontem, foi o grande dia. Eu ainda não sabia disso, entretanto. Estava ansiosa para vê-lo, porém. Aquele era o meu último dia no colégio e meio que o último dia que nós nos veríamos - visto que eu não tinha certeza se iria ao churrasco no domingo.

Era um pouco revoltante estarmos nos aproximando logo quando não poderíamos mais nos ver, mas pelo menos tínhamos nos aproximado. Falar com aquele garoto que sentava ao meu lado todos os dias nos intervalos não era mais algo inalcançável. Estava bem ali.

Eu e minha amiga mais próxima costumávamos usar números para falarmos dos garotos que tínhamos interesse. O R era o número cinco. Eu vivia mencionando "O cinco olhou pra mim hoje"; "O cinco estava em tal lugar hoje"; "Quase consegui falar com o cinco hoje, mas fiquei com vergonha". Agora ele estava ali.