Capítulo Décimo Primeiro

"Banyama"

O número 342 da Rua Couture poderia facilmente ser tomado por uma extensão do armazém situado do outro lado do quarteirão, a forma quadrada da construção só de térreo remetendo a um depósito ou outro tipo de prédio industrial, jamais a uma casa – ao menos que rapidamente se assimilasse ter sido convertida em esconderijo por seu atual morador. Após checarmos mais de uma vez se havia soldados da FPN transitando nas proximidades, batemos discretamente à porta laminada de aço, o som reverberando o bastante para alertar qualquer um que estivesse lá dentro.

Pudemos escutar os passos se aproximando, e em meio minuto a entrada estava semiaberta; Kitara, de camisa polo e jeans, observando-nos pela fresta.

– Não é todo dia que tenho dois cozinheiros brancos a meu dispor para fazer o jantar... – ironizou depois de um instante nos examinando de alto a baixo, fumaça subindo de um toco de cigarro entre seus dedos. A seguir, recuou dentro do recinto e puxou a maçaneta da porta para abrir caminho. – Entrem.

Realmente, o cômodo único de paredes revestidas de cimento, com prateleiras ao fundo ainda contendo caixas e engradados portando o logo de alguma firma desconhecida, deixava claro que o local fora apropriado por David aos seus interesses. Ao centro, uma mesa de madeira estava disposta junto a algumas cadeiras, uma série de papéis remetendo a listas e relatórios dividindo espaço sobre o tampo com um rádio portátil e um cinzeiro repleto de cigarros apagados. Uma cama dobrável de campanha encontrava-se estendida ao pé de uma parede que, sob a luz de uma das lâmpadas-bastão ao teto, exibia fixado um grande mapa do país e suas sub-regiões, intitulado "Equatória" – seu nome enquanto colônia da França e mantido após a independência pelo ditador Philippe Adoum, só alterado para "Nagônia" recentemente com a revolução socialista de Derrean Massi. Existia outra porta ali, que pelo desenho do lugar levava a um anexo pequeno como um banheiro; algo provável pensando na funcionalidade do abrigo.

Kitara circulou alguns passos em torno da mesa, fitando-nos com certa curiosidade, antes de perguntar:

– O que levou o americano e sua companheira a abandonarem o conforto do Soleil Levant e me procurarem neste humilde lar?

– Dave, esta é Sarah – apontei-a com uma mão. – Infelizmente tivemos complicações. Fomos atacados no hotel por nossos inimigos. As mesmas pessoas responsáveis pelos tiros que levei. Escapamos por pouco de um cerco da FPN, usando estes uniformes como disfarce. E nosso país não vai mais providenciar resgate, mesmo se cruzarmos a divisa a Camarões.

– Então por isso estão aqui? – ele abriu um sorriso mordaz. – Porque ficaram sem opções? Minha proposta só se tornou atraente a partir do momento em que a possibilidade de fugir desapareceu?

Apoiei os braços na mesa, que me separava de Kitara, encarando-o com convicção:

– Eu errei em não dar ouvidos à sua causa antes, porém é uma situação de vida ou morte. Nem sabemos se você é totalmente confiável, pode muito bem estar trabalhando para Massi e agora seria capaz de entregar nossas cabeças numa bandeja. No entanto, aqui estamos, dispostos à ajuda mútua que propôs. Se não quiser nos enxergar como aliados, considere-nos ao menos recursos úteis. Pense o quanto conseguiríamos auxiliar seu pessoal enquanto permanecermos no país!

– Ah, o velho complexo do "salvador branco"... – David encostou-se a uma cadeira, arrastando-a em irritação. – Acredite, temos competência suficiente em nossas fileiras para concluirmos nosso plano sem vocês. Eu poderia usar aquele rádio para fazer uma denúncia à FPN neste exato instante e aumentar meu prestígio como Gbïäsêw, você sabe disso! Mesmo depois de ter dito aos guardas que era um jornalista naquele posto de checagem para diminuir suspeitas quanto a ser da CIA! Se quiser nossa ajuda para sair da Nagônia, terá de provar que nos auxilia não apenas pelos propósitos mesquinhos de sua nação, com seus inúmeros esquemas e traições. Precisará mostrar que as vidas de nosso povo importam tanto como as suas!

Baixei a cabeça à mesa, respirando demoradamente conforme a tensão no ar aparentava fazer meus pulmões pesarem. Em seguida direcionei de novo o olhar a Kitara:

– É justo.

David bufou, exalando boa parte da raiva. Olhou o teto por alguns segundos, esfregando o rosto. Em seguida convidou, soando conformado:

– Sentem-se.

Puxamos as cadeiras com ansiedade, causada mais por nossas pernas implorando descanso após a fuga do hotel do que insegurança relacionada ao anfitrião. Ele também tomou um assento, ainda que mais afastado, e aguardou nossos questionamentos. Fui o primeiro:

– Você se referiu a "nós". Quem é seu grupo, exatamente? Uma guerrilha à parte empenhada em evacuar refugiados do país?

– Ele é um oficial de Inteligência – Sarah declarou de súbito, unindo as mãos sobre o móvel. – Só não sabemos a qual serviço trabalha.

Alternei meu olhar entre minha companheira e David sem entender. A face deste parecia uma muralha quanto a se descobrir suas intenções.

– Só porque ele deduziu sermos da CIA? – resolvi jogar limpo, já que o propósito era construir uma relação de confiança. – Temos de admitir estar estampado em nossas caras a esta altura...

– Não, ele ter justificado dizer à FPN que você era um jornalista – Sarah explicou. – Os três tipos de pessoas que a CIA não utiliza como disfarces aos seus oficiais: clérigos, membros de corpos de paz, e integrantes da mídia. Jornalistas estão inclusos nessa última categoria... Ao menos oficialmente – ela emendou evasiva. – De qualquer forma, não é uma informação difundida entre o público comum.

Voltei a fitar Kitara, que tamborilava os dedos entre si um tanto inquieto. Brechas surgiam na muralha, logo derrubada de uma vez por aquele que a erguera:

– Meu verdadeiro nome é David Hawkins. Serviço de Segurança e Inteligência da Zâmbia.

A guinada de meus pensamentos rumo a um nó estilo escoteiro fez até com que eu sentisse vertigem. Se eu não havia entendido antes com tudo que já acontecera, agora ficava evidente: as coisas complicariam muito até ensaiarem se resolver.

– Qual é o interesse da Zâmbia no conflito da Nagônia? – indaguei intrigado. – Nem é sequer um país fronteiriço!

– Ah, é? E os Estados Unidos são? – David rebateu.

Retraí-me na cadeira, ao mesmo tempo em que Kitara – ou melhor, Hawkins – aproximava a sua da mesa e prosseguia a explanação:

– Nas últimas décadas, o governo do Partido Nacional Unido da Independência tem apoiado a posição dos Estados Unidos em diversas guerras pela África: Angola, Rodésia... Até tudo mudar com a Operação Oberon – ele fez breve pausa, decerto verificando se o nome remetia a algo para mim ou Sarah. Nosso mútuo olhar de desentendimento foi a resposta de que ele precisava. – Os agentes zâmbios auxiliaram um grupo da CIA a evacuar alguns de seus oficiais de uma pista de pouso clandestina ao norte de Luanda. Como as forças do MPLA se aproximavam, o pessoal do seu país disparou minúsculas partículas luminosas ao ar, criando uma névoa brilhante para cobrir a decolagem do avião. De início imaginamos ser um novo tipo de tecnologia, similar ao chaff usado para confundir radares... Até um de nossos homens capturar uma pessoa em miniatura e asas de borboleta com as mãos.

Um silêncio desconcertante tomou a sala antes de Sarah assimilar o suficiente do relato para concluir, cética:

– Está dizendo que a CIA usa fadas como recurso?

– Não deveria se surpreender, isso vai ao encontro do que Slavin me revelou – constatei. – A disputa secreta da Guerra Fria entre as potências, empregando seres sobrenaturais contra o lado adversário.

– Sim – concordou David, severo. – E nesse caso, em solo africano. Como disse mais cedo, nós infelizmente convivemos com a realidade da interferência externa em nossos assuntos, mas tanto americanos quanto soviéticos atravessaram uma linha bastante séria com sua nova corrida armamentista. Desde essa descoberta, extraoficialmente, a postura do governo zâmbio mudou. Nossa diretriz é proteger a população africana da agressão motivada pelas superpotências, o que vale em dobro diante da participação desses "superseres".

Após uma pausa na qual depositou o que restava de seu cigarro no cinzeiro e apanhou um isqueiro do bolso para acender um novo, Hawkins completou:

– Desde que descobrimos a transferência de uma unidade soviética bastante suspeita do Afeganistão para cá, com ordens de trazer de volta Boris Slavin, a Nagônia ganhou prioridade máxima.

Meu corpo se esticou na cadeira, dormente tanto pela exaustão quanto pelas recordações pulsando em minha mente:

– Maneater...

– Sim, uma assassina altamente letal que rastreamos há algum tempo – David relatou com naturalidade, mostrando que a Inteligência zâmbia superara todas as grandes agências da OTAN. – Há evidências de sua presença em Angola e na Etiópia, em momentos espaçados. Aparentemente é muito requisitada pela KGB, e considerando o histórico de encontros de nossos agentes com ela... É uma banyama. Seres que sugam o sangue dos vivos.

– Vampira – traduzi em inglês.

– Na Zâmbia, a palavra banyama foi usada por muito tempo para descrever os médicos europeus, muitos deles missionários, que tiravam nosso sangue para supostos remédios. Sempre "ao nosso bem", ainda que nada entendêssemos ou eles não nos explicassem. Vampiros brancos. De uma forma ou de outra, vocês continuam sugando o sangue da África... mas agora da forma mais literal possível.

Antes que o silêncio tornasse a pesar sobre a mesa, Sarah perguntou:

– Seu serviço de Inteligência conhece alguma maneira eficaz de lidar com essas criaturas?

– Apenas o que há nos filmes de terror, embora não tenhamos testado pessoalmente.

– Estamos na mesma situação, mas já fizemos algumas experiências... – afirmei. – Descobrimos que eles não saem durante o dia, estacas os paralisam contanto que permaneçam fincadas em seus corações, e morrem em definitivo se seu cérebro for completamente destruído.

– Também não aparentam estar trabalhando em conjunto com Massi ou a FPN, já que os soldados no hotel os atacaram com a mesma agressividade que usaram contra nós – minha parceira complementou.

– E não estão mesmo – David esclareceu após uma tragada no cigarro. – A KGB enviou Maneater para cá sem Massi saber. Ele acredita que a única presença soviética na Nagônia seja Slavin e seus homens, e por sinal passou a estranhar terem se embrenhado na selva sem fornecer o treinamento ou aconselhamento necessários à FPN enfrentar os opositores. Desconfiado de traição, ele colocou todas as suas forças à procura de Slavin há pouco mais de um dia.

– Isso explica o posto de checagem na ponte... – murmurei. – Mas se Massi também está insatisfeito com Slavin, bastaria o Kremlin tê-lo contatado e o instruído a colaborar com Maneater na caçada. Por que eles não se aproximaram?

– Parece-me óbvio que os soviéticos não querem que Massi saiba sobre o que Slavin tem, seja lá o que for – Sarah opinou. – Somar esforços não valeria o risco.

– Acredito que há diversas peças do quebra-cabeças que ainda não encontramos, talvez até relacionadas ao que fez seu país se apavorar e desistir de qualquer envolvimento – Hawkins ponderou conforme se levantava e caminhava até o mapa de "Equatória" à parede. – Por sorte, sei que encontrei algumas a mais que vocês...

Apontando à sub-região norte do país, similar a um grande triângulo amarelo, ele revelou:

– Graças aos meus contatos e às visitas a povoados mais remotos suprindo necessidades, descobri que Maneater visitou uma comunidade nas montanhas do extremo norte uma semana atrás. Ela estava acompanhada de trinta comandados; e como apareceram à noite, presume-se serem todos vampiros. Obrigaram a população a trabalhar na Ivoire Rouge, uma ferrovia construída por uma mineradora francesa e deixada inacabada quando a independência aconteceu há mais de vinte anos, originalmente planejada para atravessar a fronteira até o Chade – David apontou o percurso aproximado da estrada de ferro com o dedo, por não constar no mapa. – Ao que tudo indica, os soviéticos colocaram parte do antigo maquinário para funcionar e trouxeram seu próprio equipamento novo para colocar a linha em plena operação, utilizando a mão de obra dos camponeses nagonianos. Segundo minhas fontes, alguns dos russos reapareceram toda noite desde então para conferir o trabalho, prometendo sangrentas penalidades caso haja falhas.

– Por que eles se dariam o trabalho de reabrir uma ferrovia dessa maneira? – inquiri pensativo.

– Há algo do interesse de Maneater naquelas montanhas, Bruce. Só não fazemos ideia do que, e se isso possui uma relação direta ou não com Slavin. Anteontem, ouvi que havia uma presença incomum de supostos russos em Asiäkulä, e por isso vim investigar. Foi quando o encontrei na beira da estrada.

Saindo de perto do mapa e voltando até nós, Hawkins continuou:

– Desde então estou tentando descobrir qual seria um eventual esconderijo ou ponto de encontro do grupo de Maneater na cidade, sem muito sucesso.

Meus músculos relaxaram de alívio – e satisfação em poder contribuir – conforme puxava de um bolso da calça o cartão colorido obtido do inimigo decapitado no elevador do Soleil Levant, empurrando-o a David por cima da mesa:

– Nós também conseguimos peças extras do enigma, amigo – sorri.

O agente zâmbio apanhou o artefato, examinando-o por um momento.

Le Ronronnement du Jaguar... – leu, coçando o queixo. – Eu conheço esse clube. Fica nos limites da cidade, a oeste. É um bom ponto de partida para averiguarmos.

Nisso, senti o toque de Sarah numa de minhas mãos. Seu olhar mostrou-se inesperadamente preocupado, ao mesmo tempo exigindo de mim determinada atitude. Compreendi sem demora. Por mais que aquilo até então houvesse se mostrado uma vantagem, eu não compreendia o que ao certo ocorria, e ainda representava risco a mim e aos outros.

Levantando-me paciente da cadeira, chamei a atenção de Hawkins, que agitava cinzas do cigarro sobre o pote à mesa:

– Dave, há algo mais que precisa saber.

Depois de ele confirmar com um gesto e manter o olhar fixo em mim, desabotoei o dólmã e exibi meu tórax sem quaisquer resquícios dos ferimentos a bala, tomando o cuidado de que estivesse bem iluminado sob uma das lâmpadas.

David ficou quieto durante todo um minuto, examinando-me com atenção, porém sem demonstrar espanto.

– Então você é um deles? – foi sua primeira pergunta.

– Não sei dizer – comecei a fechar o traje. – Talvez sim, talvez não. Meus ferimentos simplesmente fecharam por completo ao longo do dia. E de certa forma me sinto mais ágil, um pouco mais forte... Nada de sede de sangue ou presas, por enquanto.

– Isso é estranho... – ele terminou mais um cigarro. – De qualquer modo, entenda que precisaremos ficar de olho em você. Não sabemos se foi infectado por um deles, e como esse quadro pode progredir.

Assenti num aceno, sabendo que, mesmo diante da perspectiva aterradora, David tinha toda razão.

– Ademais, descansem um pouco e tomem um banho – ele indicou a entrada levando ao cômodo anexo, em seguida conferindo seu relógio de pulso. – Ainda são oito e quarenta da noite. Temos horas de escuridão pela frente e o Le Ronronnement du Jaguar só fecha as portas ao amanhecer. Sugiro irmos conhecer a clientela.

Ainda que a ideia de um novo banho me trouxesse más recordações do ataque ao quarto de hotel, adentrei a outra sala, acompanhado de Sarah a alguma distância.

Era mesmo um banheiro; mas, além do vaso sanitário, pia com espelho e chuveiro, armas estavam penduradas em suportes pregados às paredes, de uma série de pistolas a submetralhadoras, terminando em três potentes espingardas.

– Como disse precisarmos causar dano à cabeça daquelas coisas, talvez devamos levar algo mais conosco além de roupas bonitas e um bom perfume... – David salientou, apanhando uma das escopetas, calibre 12, e puxando a telha junto ao cano.

Desejando que o banheiro de nossa antiga suíte fosse equipado como aquele, pude apenas concordar.