"Se me observa, diga-me. Porque quero entender essa sua obsessão, e comparar com a minha".

Latumia.


O barulho irritava Amanda. Ela tinha colocado a TV no volume máximo, porém, não conseguia escutar direito. A delegacia estava lotada e, mesmo que a porta da sua sala estivesse fechada, era impossível não escutar as pessoas falando alto umas com as outras, o barulho do telefone tocando, o som das algemas roçando nas mesas de seus companheiros.

Esfregou as têmporas e continuou a olhar para a TV. Via o caso do seu pai na televisão. Um caso que há muito tempo havia sido solucionado, por mais que ela achasse que alguma coisa não se encaixava, mas aquele tinha sido um caso com bastante repercussão, sendo mostrado ao mundo todo.

– Elas parecem seguras de si. - Pegou um cigarro e levou a boca. - Isso é bom. - Tragou e soltou a nicotina.

Ficou olhando a fumaça se dissipar antes de jogar o cigarro inteiro fora. Ela estava tentando parar de fumar. Às vezes acendia, dava um trago só para conter a ansiedade, e logo depois se arrependia e jogava o mesmo fora. Já estava com aquele maço há 1 mês. Isso era uma vitória para quem fumava cinco maços em um dia. Passou as mãos pelos cabelos curtos e se arrependeu em seguida. Teria que lavar o cabelo de novo.

Escutou uma batida leve em sua porta, um simples "entre" fez a pessoa colocar a cabeça para dentro da sala. Amanda viu o rosto de seu amigo se contraindo por causa do cheiro.

– Porra! - Ele levou a mão ao nariz. - Pensei que tivesse parado.

– O que você quer? - Cortou-o.

Ela não gostava de gente se intrometendo na sua vida, por mais que Simon fosse seu amigo.

Ele fechou a porta e sentou-se de frente para ela. Podia escutar ainda a entrevista dada pelas novas empresárias de Manhattan.

– Não sabia que você era fã de moda.

– Não sou. - falou com indiferença. - Só um pouco obcecada por elas. - Disse a verdade.

Amanda realmente era obcecada pelas mulheres. Seu pai havia lhe contado o caso delas na esperança de ela própria saber se defender desse tipo de psicopata. Na época, ela tinha seis anos e seu pai achou que, se ela soubesse o que aconteceu com as meninas, que tinham praticamente a mesma idade que ela, ela não daria mole na rua. Iria de casa para o colégio e do colégio para casa. Ele queria protegê-la. Quando ficou mais velha, leu os arquivos que ele guardava no escritório.

– Por quê? - Simon coçou a barba por fazer. - O que têm elas?

– É um caso antigo do meu pai.

– Caso?

Amanda fez sinal para que ele se calasse.

"Gostaria de saber se o que aconteceu no passado já foi superado?"

– Tem sempre um babaca. – Disse, irritada.

"Ele está morto, logo ele já foi superado".

Amanda sorriu. Ela queria gargalhar. Aquela mulher tinha dado um tapa bem forte na cara daquele jornalista.

– Nossa! - Simon quase cuspiu o café. - Quem é essa loira?

– Megan. - Amanda entendeu o porquê de aquela mulher ser a presidente da empresa. - A irmã mais velha da Violet, a de cabelos curtos dourados ao lado dela.

– Ela podia ter ido com mais calma. O cara só está fazendo o seu trabalho.

– Eu não acho. - Amanda desligou a televisão encarando o amigo. - Aquela é uma empresa de moda, ele tinha que está fazendo perguntas relacionadas à moda e não ao que aconteceu há dezoito anos.


Luke chegou na academia logo depois de passar no hospital. Levou três pontos no supercílio, além de sair com uma caixa de analgésico, o que fez valer apena a visita ao hospital. Passou por um grupo de mulheres dançando ao som de uma música eletrônica. Ele sorriu e acenou para as mesmas, que sorriam e cochichavam umas com as outras. Chegou em frente a sala de Noah batendo apenas uma vez. Logo um sonoro "entre" pode ser escutado – e esta era a deixa para ele.

O amigo estava sozinho no meio de uma quantidade razoável de papéis.

– Então, qual é o problema? - Perguntou já pegando um papel da pilha e analisando. - Nossa! Tu gastaste isso tudo em mármore?

– Sim. - Noah suspirou. Estava com dor de cabeça. - Preciso que você veja quanto eu estou devendo, se falta muito para quitar as dívidas, até quando vou ficar no vermelho... Essas coisas.

– Beleza. - Luke juntou todos os papéis e colocou de volta dentro da pasta. - Vou fazer isso em casa, agora tu ligas essa TV que eu quero ver a entrevista da namorada do meu irmão.

Noah sabia que Luke não faria aquilo ali com ele. Sempre soube que o amigo preferia a solidão para trabalhar. Olhou para o irmão de Lucian, que tinha o rosto machucado, e ficou curioso sobre o que tinha acontecido a ele. Na certa, tinha alguma mulher envolvida.

– O que houve com o seu olho? - Perguntou ao ligar a TV. - Está horrível.

– Briguei com três caras ao mesmo tempo. - Luke pegou o controle da mão do amigo, procurando pelo canal ao qual queria ver. - Tem que ver os outros caras.

– Brigou assim, de graça, ou por causa de um rabo de saia?

– Sempre por causa de um rabo de saia. - Luke conseguiu achar o canal e ficou desapontado ao perceber que a coletiva já tinha acabado. - Queria muito ter visto essa coletiva. - Falou chateado.

– Deve repetir mais tarde. - Noah deu de ombros. - Era tão importante assim?

– Cara, é uma empresa de moda, só tem mulher gata e isso eu tiro pela Rachel.

– Ah! - Noah tinha esquecido completamente. Nem associou quando o amigo mencionou no começo que era uma entrevista com a namorada de Lucian. - Esqueci! Falei sobre isso com o Jonathan e Joshua hoje.

– Cara, onde você anda com a cabeça?

– Nas minhas dívidas. - Disse indiferente.

– Queria ter visto as irmãs Farell.

– Fiquei sabendo hoje que Violet é uma Farell e que a irmã dela começou a malhar aqui hoje.

– Quem é Violet? - Luke desligou a TV, voltando sua atenção ao amigo.

– Violet foi uma das minhas primeiras clientes quando eu abri a academia. Ela faz balé aqui. - Ele devolveu o controle da TV para dentro da gaveta de sua mesa. - Além dela, a irmã começou a malhar aqui. Megan, se não me engano.

– Porra, Noah! - Luke jogou os braços para o ar indignado. - Tu conheces as Farell? Porra! O pai delas tem dinheiro para dar e vender! Milionário! Queria muito trabalhar na empresa dele.

– Você sabe que eu sou meio desligado com essas coisas.

– Desligado? - Luke queria esfolar o amigo. – Mulheres, amigo! .RES! - Fez questão de pontuar a palavra para ver se ele entendia de uma vez.

– Eu sei, mas ultimamente não tenho tempo para nada e Violet é amiga, não dá para imaginar ela dessa forma.

– Cara, para com essa porra de amiga. - Luke chegou mais perto do amigo. - Só não pego a Rachel porque é do meu irmão, porque se não…

– Tu deves estar querendo apanhar do seu irmão, só pode. - Noah sempre soube que Luke era um safado nato, mas ter esse tipo de pensamento com a mulher do irmão já era demais para ele. - Tem que aprender a respeitar a lei dos amigos, cara.

Luke revirou os olhos para o amigo. Com ele, não tinha essa de mulher de amigo meu é homem. Se fosse bonita e se não fosse casada, ele pegava, claro, se ela desse chance.

– Aliás, se você continuar desse jeito, vai acabar sozinho.

– Conhece aquele ditado: solteiro sim, sozinho nunca?

– Fala sério, Luke. - Noah levantou-se e fez um gesto para que o amigo o seguisse. - Eu acho que você tem medo de se apaixonar.

– Meu amigo, eu vivo apaixonado. Eu sou apaixonado por todas as mulheres. - Ele abriu os braços e ensaiou um giro de 360 graus. - Eu tenho todas as mulheres à minha disposição.

– Cara… - Noah às vezes sentia-se incomodado com o pensamento do amigo. - Você vai encontrar uma mulher que não vai te querer, e você vai se apaixonar tão perdidamente por ela, que vai rastejar aos pés dela.

– Para de rogar praga! - Luke fez o sinal da cruz. - Toma cuidado que eu estou com os seus papéis. - Ele ergueu a pasta com um sorriso travesso nos lábios.

Noah encarou o amigo fazendo palhaçada no meio da academia e não pôde deixar de notar a quantidade de mulher que lançava olhares cheios de segundas intenções para ele. De fato, Noah compreendia que Luke era um puto de um homem sortudo, que nasceu com a bunda virada para a lua no quesito mulheres.

O que Noah não sabia era que Luke já era perdidamente apaixonado por uma pessoa. Uma pessoa que era proibida para ele, por mais que ele fizesse brincadeiras com ela, ele sabia que nunca poderia ter qualquer tipo de relacionamento com o amor da vida do seu irmão. Às vezes, ele se amaldiçoava por gostar tanto de Rachel e, às vezes, ele se pegava desejando ser o seu irmão.


Joshua voltou para a empresa depois do almoço, ligeiramente nervoso. Ele não tinha tido a oportunidade de conversar com Megan naquela manhã, depois que descobriu que a mulher era a sua chefe. Muitas coisas começaram a passar pela sua cabeça. Sempre repassava o que tinha acontecido para saber se havia tratado a mulher de forma ríspida ou rude.

– Não. - Falava consigo mesmo. - Eu fui supereducado.

– Está falando com quem? - Violet perguntou de supetão ao homem que, aos seus olhos, parecia bastante nervoso. Seria esquizofrênico? - Você tá se sentindo bem?

– Desculpa. - Ele não havia notado a presença dela. - Estava falando comigo mesmo. Mas sim, eu me sinto bem. Talvez um pouco desconfortável, mas bem.

– Desconfortável com o quê? – Perguntou, curiosa.

– Com uma situação que aconteceu comigo pela manhã. - Falou sem graça. - A propósito, meu nome é Joshua. - Ele estendeu a mão para ela.

Violet ficou meio apreensiva em aceitar a mão nele, mas não podia ser indelicada ou rude com alguém que podia ser um investidor ou algum funcionário da empresa.

– Prazer. - Falou apertando a mão dele. - Violet Farell.

Ela não tinha dito o nome todo para intimidá-lo ou se gabar. Só havia deixado escapar por causa da manhã atribulada que teve. Todos os jornalistas queriam saber quem era ela e a chamavam pelo nome completo. Uns até utilizavam somente o sobrenome para lhe dirigir a palavra, e acabou ficando com isto na cabeça.

– Ah! - Ele não costumava ficar sem jeito, mas ultimamente aquilo vinha se repetindo bastante. - Eu sou o novo modelo.

– Que ótimo! – Falou, empolgada. Ele era bem bonito, seria um ótimo modelo. - Minha irmã vai adora te conhecer.

– Que bom. - Ele não sabia se dizia ou não que já conhecia a irmã dela.

– Aliás, ela deve estar esperando os novos modelos na sala dela. - Violet fez um gesto simples com a mão para que ele a seguisse. - Vou te levar até lá.

– Obrigado.

– De nada. - Ela sorriu. - Você vai adorar conhecer a Bea e a Rachel. Elas também estarão presentes.

– E você? - Ele resolveu mudar um pouco o foco da conversa. - Não estará presente também?

– Não estaria há cinco minutos atrás, antes de esbarrar em você. - Falou com sinceridade. - Estou meio atolada de trabalho e queria dar uma adiantada. Minha irmã pode ser um tanto quanto autoritária demais. - Ela confidenciou com um sorriso travesso nos lábios. - Porém, vejo que está assustado. Então não te deixarei com o lobo sozinho, pobre cordeirinho.

Joshua já tinha uma ótima primeira impressão de Violet. Ela era divertida no ponto certo e não deixava o clima ficar pesado. Analisando bem, os traços eram bastante evidentes entre as irmãs. Apesar de Violet ser um pouco menor e ter os cabelos mais curtos e escuros que os de Megan, a tonalidade dos olhos eram a mesma – azul-celeste.


Megan apreciava a vista da sua sala quando Bea e Rachel entraram conversando animadamente. Elas sentaram no sofá, de frente para uma grande lareira a gás moderna, toda revestida de mármore branco. A amiga se juntou às duas enquanto lia o jornal. Dali a alguns minutos, sua sala estaria cheia de modelos recém-contratados.

– Eu não consigo entender esses jornalistas. - Bea estava irritada. - Eles só querem saber da porra do nosso passado.

– Isso não me surpreende. - Rachel conferia o celular de tempo em tempo. - Eles fazem de tudo para conseguir uma promoção.

– Aquela pergunta daquele jornalista… -Bea chegava a ficar arrepiada só de pensar.

– Eles amam uma matéria sensacionalista. - Megan disse enquanto lia o jornal.

– Aliais, você foi sensacional. - Rachel encarou a amiga.

– Confesso que a minha vontade era de pular no pescoço dele, mas me contive. - Megan fechou o jornal e o depósito na mesa de centro. - Foi por pouco.

– Eu teria gostado de ver você dando um belo de um murro na cara dele. - Bea olhou o jornal, ligeiramente interessada. - Tem a parte esotérica nele? - Perguntou apontando para o jornal.

– Tem.

Bea pegou o jornal e começou a procurar pela leitura dos signos daquele dia. Ela não era muito de acreditar nessas coisas, mas curtia ler.

– Você adora isso. - Rachel se aproximou da amiga quando percebeu que ela havia achado a página. - Lê para a gente.

– E tem a capacidade de dizer que não curte essas coisas. - Megan relaxou no sofá. Seus músculos doíam por causa da academia.

– Você quer ouvir ou não? - Perguntou.

– Você vai ler de qualquer jeito. - Respondeu. Sua cabeça estava em outra coisa. "Será que veria ele de novo?" Pensou.

– Vamos lá.- Bea se ajeitou no sofá. - Primeiro vamos ler o da Rachel. Gêmeos. Pegue leve no trabalho para evitar o estresse. - Bea olhou de Rachel para Megan e evitou sorrir. - Poderá ter uma ideia iluminada que deverá valorizar sua atuação profissional.

– Opa! Isso é bom! - Rachel falou animada.

– Vamos continuar. - Bea voltou a ler o jornal. - Na paquera, é provável que conheça alguém bem diferente, mas super atraente. - Bea olhou para amiga. - Tu paqueras ainda?

– Sempre paquero o Lucian. - Rachel deu de ombro

– Voltando. - Bea arrumou o jornal e se endireitou no sofá. - No romance, talvez role uma divergência nas crenças e valores, e precisará lidar com tato para evitar uma crise. Acolha a pessoa amada nesse momento.

– Ui! - Megan não acreditava muito nessas coisas, mas achava divertido implicar com as amigas. - Será que teremos uma tempestade no relacionamento perfeito?

– Cruzes! - Rachel fez o sinal da cruz. - Parem de agourar.

– É o que diz aqui! - Bea ergueu o jornal para se defender.

– Tá! Tá! - Rachel desconversou. - Lê o da Megan.

– Tá bom. - Bea voltou a analisar o jornal. - Áries. Procure manter sigilo de seus planos até que estejam prontos para serem executados. - Que planos, Megan? - Bea perguntou cheia de interesse.

– Não tenho nada em mente no momento. - Mentiu. - Ela estava pensando em abrir a agência em Londres, mas isso era mais para frente.

– Vamos voltar então. - Bea voltou a ler o jornal. - Talvez uma das funções que exerce no trabalho chegue ao fim.

Elas se entreolharam. Aquilo parecia meio agourento. Bea sentiu um calafrio percorrer a sua espinha.

– Ficarei feliz em passar meu cargo para uma de vocês. - Falou indiferente ao que ela disse. - Se for para chegar ao fim, que seja para entrar de férias permanentes. Quem sabe Malibu…

Bea e Rachel sabiam que a amiga estava querendo dar uma amenizada no que tinha escutado.

– Vamos voltar para o horóscopo. - Bea olhou de Rachel para Megan e voltou a ler. - Na paquera, os astros revelam que há chances de que seu próximo amor seja alguém próximo.

– Oba! - Rachel jogou uma almofada na amiga. - Será que finalmente você vai tirar o atraso? - Provocou dando uma piscadela.

Megan revirou os olhos e fez um sinal para que Bea continuasse com a leitura.

– A Lua abre caminho para que você e seu bem conversem mais, trazendo memórias alegres do início da relação. Das risadas para a cama é um pulo: aproveite esse astral.

Bea começou a rir e Rachel a acompanhou.

– Vocês duas são muito sem graça!

– É o que está dizendo aqui! - Bea mostrou o jornal. - Você vai dar isso aí que guarda a sete chaves.

Antes que Megan pudesse responder a amiga, uma leve batida na porta chamou sua atenção. Ela fez um sinal para que Bea e Rachel se recompusessem. Levantou e foi até a sua cadeira, pedindo para que entrasse. Um grupo de quatro pessoas, sendo liderado por uma mulher baixa e gordinha, que Megan reconheceu como sendo a sua nova secretária, adentrou a sala. Logo atrás, ela viu a sua irmã sorrindo com alguém que ela não esperava ver tão cedo.