Título: Crime em Vale das Angústias

Autoria: Dream-Devil

Género: Crime, Mistério

Total de Capítulos: 3

Nota 1: Esta história passa-se depois da história Crime em Santo Antonino e tem a mesma protagonista, no entanto não é necessário ler a história anterior para perceber esta, pois apenas duas personagens da outra história aparecem e o enredo é completamente distinto.

Nota 2: Os primeiros dois capítulos são escritos em terceira pessoa, enquanto o terceiro capítulo é escrito em primeira pessoa, sob o ponto de vista da protagonista.

Sumário: Rute Cardeal vai até à aldeia de Vale das Angústias, para visitar a sua família. No entanto, o que ela não esperava é que ocorresse um homicídio e quando tal acontece, Rute fica determinada em descobrir o culpado e desvendar os segredos dos suspeitos do crime. Conseguirá ela descobrir o culpado ou culpada?

Capítulo 1: A Aldeia

Vale das Angústias situava-se num vale no meio de duas montanhas. Os habitantes eram pouco mais de setecentos e as casas iam variando, entre as mais antigas, feitas de pedra, até às mais modernas e apesar de não ter um número elevado de habitantes, a aldeia ainda assim era bastante ativa. Na funerária Elvira Maria, a proprietária, Elvira Maria Ratinho e o seu filho Lindolfo estavam a trabalhar. Elvira era uma mulher pesada, já com sessenta anos e cabelo escuro, enquanto que o seu filho, de trinta e cinco anos, tinha cabelo castanho e era alto, mas bastante magro. Enquanto Elvira estava a organizar alguma papelada, o seu filho terminou de arrumar as urnas que estavam em exposição. Há já bastante tempo que a família tinha como meio de subsistência a funerária criada por Elvira e apesar de Vale das Angústias não ser muito grande, nem ter muitos habitantes, o dinheiro que a funerária fazia dava para os dois irem sobrevivendo, pois também faziam serviços para outras aldeias na região.

- Mãe, já terminei de arrumar as urnas - disse Lindolfo, aproximando-se da secretária da mãe, que ficava numa posição estratégica, perto da entrada da funerária. A funerária estava decorada de forma bastante simples, em tons cinzentos e cremes, pois Elvira achara que cores mais escuras tornariam o ambiente muito pesado. - Lembrei-me agora que temos de colocar o anúncio no jornal da região, por causa do falecimento da dona Cesaltina.

- Ah, é verdade. Faz um ano que ela bateu as botas e a família queria que colocássemos esse anúncio - disse Elvira, mexendo a cabeça e endireitando os óculos. - Já me esquecia disso. Ainda bem que a Cesaltina foi desta para pior, porque era uma mulher detestável. Mal-encarada, sempre a falar mal de toda a gente e a arranjar guerras. O mundo tornou-se um lugar muito melhor sem ela.

- Mãe, não devia falar mal dos mortos.

- Ora, eu estou apenas a dizer a mais pura das verdades - defendeu-se Elvira. - Lembras-te que uma vez ela te insultou a ti, Lindolfo? Chamou-te rato de esgoto, porque não quiseste dançar com ela na festa do São João. Aquela Cesaltina de um raio, a insultar-te! Não fiquei nada satisfeita. Mas depois vinguei-me. Quando ela bateu as botas, pintei-lhe os dentes com batom, quando estive a arranjar o corpo, que é para ela aprender!

- Mãe…

Logo depois, o telefone tocou, interrompendo Lindolfo, que iria repreender a mãe por ter tido aquele comportamento. Elvira estendeu o braço e pegou no telefone que estava em cima da secretária. Respirou fundo e atendeu. Não sabia quem era do outro lado da linha, mas desejou que alguém tivesse morrido, o que significava que Elvira teria mais um funeral para organizar e que iria receber mais dinheiro por isso.

- Muito bom dia. Está a ligar para a funerária Elvira Maria, a sua morte é a nossa alegria - disse Elvira, que gostava de dizer bastantes vezes o slogan da sua funerária, que ela própria inventara, muitos anos antes. - Em que posso ajudar? Ah, é a irmã da dona Cesaltina? Como está? Ah, está mal. Então se calhar qualquer dia tenho-a aqui como minha cliente, para preparar o seu funeral, o que é que acha? Agora até estou com um desconto nas cremações.

Lindolfo revirou os olhos. A sua mãe não tinha qualquer problema ou inibição em falar assim com as pessoas, nem qualquer problema com os mortos ou vivos. Tinha a funerária para ganhar dinheiro e não porque tivesse qualquer sensibilidade para com os mortos ou as suas famílias. De qualquer forma, sempre fora uma mulher inteligente, que por norma sabia até onde podia ir, mas se excedesse os limites, rapidamente dava a volta à questão.

- Ai ainda está rija e acha que vai durar uns anos? Pois, vamos ver. Ah, sim, está a ligar por causa do anúncio de um ano do falecimento da sua irmã. Pois claro que me lembrei disso, obviamente, porque eu lembro-me sempre dos meus queridos clientes falecidos. Ainda mais a sua irmã, que era uma pessoa tão amorosa e querida. Não merecia ter ido tão nova, só com oitenta anos. Ai não gostava da sua irmã? Pois eu também não. Estava só a mentir porque não queria ferir-lhe os sentimentos, mas eu também não gostava nada dela. A Cesaltina está é bem debaixo da terra. Pois, exatamente, você é que ficou bem, porque herdou o ouro todo dela, claro.

Lindolfo virou costas e foi fazer um inventário dos caixões que tinham no armazém. A mãe, quando queria, sabia dizer exatamente o que as outras pessoas queriam ouvir, mesmo que a própria Elvira na verdade não concordasse nada com o que podia estar a dizer. O que importava era dar a volta aos outros e vender os produtos da funerária, fossem caixões ou outros. Depois de terminada a chamada, Elvira tratou de mais alguns papéis e voltou a chamar o filho.

- A tua prima deve estar a chegar a qualquer momento. Preparaste o quarto para ela? – perguntou Elvira.

- Está tudo pronto, mãe – respondeu o filho, com um aceno de cabeça. – Já passaram uns anos desde que a Rute esteve na aldeia pela última vez, mas fico contente por ela vir passar alguns dias aqui connosco.

- Também eu. Vivemos longe e acabamos por perder o contato, mas fiquei satisfeita por ela ter ligado a dizer que queria vir visitar-nos – disse Elvira. Dissera à sobrinha que ela devia ficar uns dias na aldeia e ela concordara, pois estava de férias. A porta da funerária abriu-se e Elvira levantou os olhos, sorrindo de seguida. A sobrinha acabava de chegar. Rute Cardeal tinha estatura média, cabelo castanho e vinte e seis anos. Trabalhava para uma revista de viagens e ia visitando vários locais, para depois falar deles na revista. – Rute, sê bem-vinda, minha querida.

- Olá tia – disse Rute, cumprimentando a tia e de seguida o primo também. Deixara a sua mala de viagem no carro, que estacionara junto à funerária. Elvira e Lindolfo viviam por cima da loja. – Enquanto vinha a circular pela aldeia, vi uma ou outra coisa diferente do que me lembrava, mas de resto parece tudo na mesma.

- E está. Aqui pouca coisa muda – disse Lindolfo, com um encolher de ombros.

Depois de um pouco de conversa, Lindolfo foi tratar de outros afazeres. Elvira indicou à sobrinha que devia ir buscar as suas coisas, para as levar para o seu quarto e foi nessa altura que surgiu Guiomar Josefina Meireles Januário Fonseca Reinaldo Lopes, conhecida na aldeia como a viúva, por já ter enterrado quatro maridos. Guiomar tinha quarenta anos, possuía cabelo loiro encaracolado, pelos ombros e arranjava-se bastante bem. O seu último marido tinha morrido apenas há um mês, mas Guiomar já trajava roupas bastante claras, sem revelar qualquer tipo de luto que estivesse a fazer. Elvira sorriu-lhe, já que Guiomar era uma boa cliente. Quatro maridos tinham garantido quatro funerais a Elvira.

- Então Guiomar, o que é faz por aqui? - perguntou Elvira. - Não me diga que se casou outra vez e morreu mais algum dos seus maridos? Se for, eu faço-lhe um desconto especial, só porque é o quinto funeral que me encomenda.

- Ai, dona Elvira, credo, não diga uma coisa dessas. Não me casei novamente… pelo menos para já. Sabe que eu não tenho feitio para ficar sozinha muito tempo - disse Guiomar e toda a gente na aldeia sabia isso. Ela olhou para Rute, que não conhecia, mas voltou a focar-se em Elvira. - Sinto tanta falta dos meus quatro queridos maridos, que Deus os tenha em paz.

- Compreendo, compreendo. Eles que descansem em paz, claro. Mas se quiserem voltar à vida para morrerem logo a seguir e eu fazer mais uns funerais, também não tem mal nenhum - disse Elvira, em jeito de brincadeira, mas Guiomar não achou graça. Rute revirou os olhos, perante as palavras da tia, apesar de saber que ela não era muito ligada a sensibilidades. - Vamos então ao que interessa, o que veio cá fazer hoje?

- Ora, estava a pensar fazer umas alterações na campa do meu Francisco Januário - respondeu Guiomar, puxando uma cadeira que estava em frente à secretária de Elvira e sentando-se. - Pensei em mudar o emblema que pus na campa e colocar um novo, porque aquele está gasto. Talvez um emblema de uma perdiz. O meu Francisco Januário gostava muito de caçar. Às vezes eu fazia de conta que era uma perdiz e ele andava a correr atrás de mim, para me caçar.

- Ó Guiomar, acho que já está a dar informação a mais. Isto aqui é uma funerária, não é um programa da noite que aborda o que é que os casais andam a fazer na sua intimidade. E olhe que tenho aqui a minha sobrinha, a Rute, portanto atenção ao que diz. Mas vamos lá tratar então do emblema e vou dar-lhe um orçamento para isso.

- Espero que me faça uma atençãozinha no preço, porque sabe que eu sou uma cliente fiel - disse Guiomar, abanando a cabeça.

- Pois, claro que sei. Também, a verdade é que somos a única agência funerária em Vale das Angústias e arredores, portanto também não tinha grande escolha - disse Elvira, pigarreando. - Era isso ou cavava você um buraco e atirava para lá os seus maridos, conforme fossem morrendo, mas a minha agência funerária presta um serviço mais digno. Mas vamos lá falar de preços então, que eu tenho mais que fazer e você também deve ter mais que fazer, mais que não seja ir à procura de outro marido.

Pouco depois, Lindolfo saiu do armazém e ao ver Guiomar, sorriu-lhe, mas depois lembrando-se que ela tinha perdido um marido há apenas um mês, voltou a dar-lhe os pêsames, segurando-lhe numa das mãos com delicadeza. Elvira olhou do filho, com uma expressão tola no rosto, para a viúva, que parecia agradada pela atenção que estava a receber. Desde que Elvira se lembrava, Guiomar sempre gostara de captar a atenção dos homens. Rute observou tudo sem dizer uma palavra.

- É muito gentil, Lindolfo - disse a viúva. - Um verdadeiro cavalheiro.

- Ora, apenas queria demonstrar-lhe a minha preocupação - disse Lindolfo. - Se precisar de alguma coisa, não hesite, porque estou aqui para a ajudar. Quer dizer, estamos os dois, eu e a minha mãe. Ao seu inteiro dispor, sempre que precisar. A qualquer hora do dia. Disponha. Se estiver em baixo, tem sempre aqui um ombro amigo onde pode chorar e com quem pode desabafar.

- Eu agradeço imenso, mas para já as coisas estão a voltar ao normal - disse Guiomar, de forma calma. Chorara durante três dias, depois da morte do quarto marido, mas depois as lágrimas tinham secado e Guiomar trocara as roupas escuras por outras mais claras e decidira que estava na altura de seguir em frente. Rute já ouvira falar da viúva, mas ao que parecia o número de maridos mortos parecia estar a aumentar ainda mais. - Mas fico grata pela sua bondade, Lindolfo.

Elvira lançou um olhar irritado à cena, mas manteve a boca fechada, pois temia que se dissesse alguma coisa contra Guiomar, ela mudasse de ideias sobre o emblema e Elvira ficaria a perder com isso. Corriam rumores de que Guiomar despachara os quatro maridos e a última coisa que Elvira queria é que o seu filho se engraçasse pela viúva, se tornasse o seu quinto marido e depois acabasse por ir para a cova em pouco tempo. Nesse momento, o telefone voltou a tocar.

- Muito bom dia. Está a ligar para a funerária Elvira Maria, a sua morte é a nossa alegria. Em que posso ajudar? - perguntou Elvira. - Ah, a dona Albertina do talho morreu? Que pena. É trágico, mesmo trágico! Um ataque de coração fulminante? Estava a cortar bifes, deu-lhe o ataque de coração e foi encontrada mais tarde caída com a cara em cima dos bifes? Que horror. Tiveram de mandar os bifes para o lixo? Isso foi um desperdício… bom, vamos passar ao que interessa e falarmos de preços para o funeral.

Crime em Vale das Angústias

Deixando a funerária para trás, depois de ter acertado pormenores sobre o emblema para a campa de Francisco Januário, Guiomar pareceu satisfeita. Respirou fundo, enquanto ia caminhando pelas ruas de Vale das Angústias. A viúva foi olhando para os homens por quem ia passando, pois sempre apreciara olhá-los, mesmo quando era casada. Na opinião de Guiomar, a vida era demasiado curta para estar só. Um dia podia estar tudo bem e no outro estar morta, com a cara esparramada contra uns bifes, como acontecera à Albertina do talho. Ao caminhar, Guiomar foi relembrando os seus quatro falecidos maridos.

Quando tinha dezoito anos de idade, Guiomar casara pela primeira vez com Francisco Januário. Ele era um jovem que tinha grandes sonhos, queria viajar pelo mundo e ser rico. Acabara por ficar a trabalhar nos correios da aldeia e os sonhos tinham ficado de lado. O casamento durara apenas três anos, o casal tinha tido um filho e depois Francisco morrera, para desgosto de Guiomar, que, ainda muito jovem, ficara viúva e com um filho para criar. Aos vinte e dois anos, Guiomar casara com o seu segundo marido, Rogério Fonseca, de quem tivera uma filha. Rogério era pessoa calma e que sabia o que queria da vida. Trabalhava na farmácia da aldeia e nos tempos livres vendia seguros. Durante oito anos, os dois tinham sido felizes, até que Rogério morrera. Aos trinta anos, Guiomar casara-se com Ulisses Reinaldo, um imigrante que se instalara na aldeia. Os dois tinham-se dado muito bem, pois Ulisses era muito animado. O casamento durou sete anos, até que Ulisses foi desta para melhor. Por fim, já com trinta e sete anos, Guiomar casara com Casimiro Lopes, um empresário muito rico, que se encantara por ela mal a vira pela primeira vez e não descansara até a conquistar. A morte de Casimiro tinha sido muito súbita, mas Guiomar ultrapassara-a depressa.

Assim, Guiomar ficara com quatro maridos mortos e dois filhos. O seu filho saíra de Vale das Angústias, mas a sua filha, Sofia Vanessa Fonseca, ainda morava com ela. Guiomar caminhou até à sua loja de antiguidades e abriu a porta, entrando. A loja possuía diversos objectos de decoração e não dava muitos lucros, mas Guiomar também não precisava de fazer muito dinheiro com a sua loja, porque tinha a herança dos quatro maridos para a sustentarem a ela e à filha. Casimiro, o quarto marido, tivera bastante dinheiro, que acabara por deixar a Guiomar. A viúva entrou na sala dos fundos da loja de antiguidades e sorriu.

Tinha posto numa parede os retratos dos quatro maridos. Um a um, foi tocando nos retratos e relembrando algumas das coisas sobre cada um deles. Como Francisco Januário adorava selos, como Rogério Fonseca conseguia arrotar o alfabeto, como Ulisses Reinaldo sabia dançar todo o tipo de danças e como Casimiro Lopes escorregara uma vez na igreja e caíra em cima da beata Adosinda. Depois, a viúva ouviu a porta da loja abrir-se e apressou-se a dirigir-se à entrada. Quem tinha entrado era a sua filha, Sofia Vanessa, com dezassete anos. Possuía cabelo castanho comprido e usava uma saia curta.

- Então querida, o que é que estás aqui a fazer? - perguntou Guiomar, confusa. - Não devias já ter apanhado o autocarro para ires para a escola?

- Não sabes que o motorista do autocarro é irmão da Albertina do talho e que ela se finou? Portanto, ele não estava em condições de conduzir o autocarro e não fomos a lado nenhum - respondeu Sofia, exasperada. - Mas por que raio é que metade das pessoas que vivem aqui são velhos e estão sempre a bater a bota? Não há uma semana em que não morra alguém por aqui.

- Ó querida, são coisas da vida. E da morte - respondeu Guiomar, encolhendo os ombros. - Mas pronto, então se não foste para a escola, podes passar o dia comigo, aqui na loja. Podemos conversar, arrumar a loja e...

- Ficar aqui contigo? Nem pensar. Mais vale ir para casa. Não estou para te estar aqui a ver a atirares-te a todos os homens, há procura do homem certo para ser o teu quinto marido.

- Sofia Vanessa, vê lá como falas, que eu sou tua mãe e exijo respeito! - disse Guiomar, parecendo aborrecida. - Eu não me atiro assim a qualquer homem. Aliás, sou uma pessoa muito selectiva no campo amoroso, fica sabendo. Faço sempre várias questões para saber se somos compatíveis ou não. Claro que isto já durante um jantar romântico, que o homem deve pagar.

- Mãe, o Casimiro só morreu há um mês. Temos coisas no congelador que estão lá há mais tempo do que o Casimiro está debaixo da terra e tu já andas de olho noutro para o substituir - disse Sofia, suspirando. - Sabes o que é que eu te digo? Estou farta desta terra. Mal possa, faço como o meu irmão e vou-me embora daqui para fora, para bem longe e nunca mais volto.

- Não podes fazer isso. Ias deixar a tua mãe assim sozinha?

- Sozinha? Daqui a pouco tempo estou mesmo a ver que já tens outro marido, portanto sozinha nunca ficas. E eu estou quase a fazer dezoito anos. A partir daí, posso fazer o que eu quiser, mãe.

Sofia saiu da loja, enquanto Guiomar suspirava. À medida que os filhos tinham crescido, Guiomar tivera sempre dificuldade em dar-se bem com eles, tanto que o filho já se fora embora de Vale das Angústias e agora a filha pensava fazer o mesmo. Guiomar sabia que devia ter dado mais atenção aos filhos e não se dedicar tanto aos seus maridos, mas sempre gostara de ter companhia. Detestava estar sozinha e os maridos faziam-na feliz. Pelo menos, durante um tempo. Depois, o casamento passava a ser mais rotina do que outra coisa. Felizmente, parecia que quando isso começava a acontecer, o marido morria e pouco depois Guiomar arranjava outro.

Vale das Angústias

À noite, a casa mortuária encheu-se de pessoas para o velório da Albertina do talho, conhecida da maioria das pessoas da aldeia. Em vida, Albertina punha muitas vezes a mão na balança, para os clientes levarem menos carne e pagarem como se tivessem levado mais, mas agora em morte, as pessoas esqueciam-se desses pormenores. Elvira estava de pé, perto do caixão, cumprimentando alguns conhecidos. Tinha de estar a par de tudo, para que tudo corresse bem. No último funeral, alguém roubara a dentadura a um falecido e Elvira não ia deixar que isso voltasse a acontecer. O seu filho Lindolfo sentara-se a um canto, num dos bancos da casa mortuária e Rute também estava lá. A sobrinha achara que não devia ir ao funeral, visto que nem conhecia a falecida.

- Por aqui, um funeral é uma oportunidade de convívio, querida. E olha, as famílias gostam de ver muitas pessoas presentes, parece que o falecido ou falecida era muito importante. Ainda hoje chegaste, portanto vais ficar fechada em casa? – perguntara Elvira, com as mãos nas ancas. – Vem connosco.

E Rute acabara por ceder. Agora, ao ver todas aquelas pessoas, a maioria que não conhecia, já não tinha tanta certeza de que tivesse sido boa ideia. Guiomar chegou acompanhada da sua filha, mas foi a muito custo que conseguira trazê-la, pois Sofia preferia mil vezes ficar em casa, a ver fosse o que fosse na televisão, em vez de estar ali. Olhando para as outras pessoas, Sofia suspirou. Os mesmos de sempre. O velho padre Rodolfo Ramiro andava por ali a cambalear, sinal de que já tinha bebido uns copos, como era costume. Adosinda Milho, a beata mais beata de Vale das Angústias, andava a falar com toda a gente e o velho Honório Gonçalves, dono do café da aldeia, estava sentado a um canto, a conversar.

- Sempre as mesmas pessoas - pensou Sofia. - Estou cansada disto. Estes velhos jarretas, as beatas moralistas, o padre bêbado, os caixões, as mortes… bolas, calha mesmo bem o nome desta terra. Vale das Angústias… para mim, é uma angústia viver aqui. O meu único consolo... não está aqui agora. Onde estará ele? Deveria ter vindo como o padre Rodolfo...

Guiomar puxou a filha para perto do caixão e Sofia desviou o olhar. Não gostava nada de olhar para a cara dos falecidos. Uma cara inexpressiva e descolorada, de olhos fechados. Deitou só uma olhadela à cara da Albertina do talho e pareceu-lhe que alguém deixara ficar um pedaço de bife atrás da orelha dela. Guiomar murmurou uma prece, olhando para a falecida e deu os pêsames aos familiares que estavam mais próximos. Depois, Guiomar e Sofia sentaram-se num dos bancos, olhando para as outras pessoas. Nesse momento, aproximou-se Plácido Mesquês, um homem de 40 anos, alto, de cabelo escuro e de barba rala. Era o coveiro de Vale das Angústias.

- Que prazer em ver-te, Guiomar - disse Plácido, pegando numa das mãos da viúva. O seu olhar era intenso. - Lamento muito pelas tuas perdas.

- Eu sei, já me tinhas dito, Plácido - disse Guiomar, acenando afirmativamente com a cabeça. Fora para o velório com um vestido cinzento que tinha e com um chapéu na cabeça, apesar de ser de noite e não estar sol nenhum. - Mas mais uma vez, obrigada pela tua simpatia.

- Está tudo bem contigo? Precisas de alguma coisa?

- Não, não preciso de nada. O meu coração ainda dói pelo meu querido Casimiro, mas o que lá vai, lá vai e ele morreu, mas eu estou aqui, bem viva, portanto tenho de continuar em frente.

- Claro, claro - disse Plácido, abanando a cabeça e depois sentando-se ao lado de Guiomar. - Mas se precisares de alguma coisa no futuro, conta comigo. Eu estou sempre aqui para te ajudar em tudo o que necessitares.

Guiomar acenou afirmativamente. Plácido fora o seu primeiro namorado, antes de conhecer o seu primeiro marido. Os anos tinham passado, mas Guiomar sabia que Plácido ainda gostava bastante dela. A cabeleireira da aldeia até tinha insinuado que agora que Guiomar perdido o quarto marido, Plácido podia ser o quinto, mas Guiomar dissera-lhe que não. Sofia, que não simpatizava com Plácido, virou a cara e não lhe disse uma palavra sequer. Só desejou poder ir embora dali. Ou então que alguém morresse naquele preciso momento e, no meio da confusão, ela pudesse esgueirar-se sem que ninguém visse.

Entretanto, Adosinda Milho, a beata, aproximou-se de Rute e acabou por se sentar ao lado dela. Adosinda tinha já cinquenta e cinco anos, mas nunca casara e todos os dias ia à missa. Passava horas a rezar e o resto do tempo a tentar saber da vida de toda a gente e a falar mal das pessoas, pelo que depois rezava novamente como penitência pelo seu comportamento. Ao ver ali uma cara que não costumava ver, decidira aproximar-se. Rute já conhecia Adosinda, apesar de não a ver há alguns anos e não tinha a melhor opinião sobre ela.

- Então, vieste fazer uma visita à tua tia e ao teu primo, não foi? – perguntou Adosinda, com um pequeno sorriso. – Já não vinhas cá há algum tempo. Ouvi dizer que trabalhas para uma revista de jardinagem.

- De viagens. Trabalho para uma revista de viagens – corrigiu Rute. – Mas estou de férias e, portanto, vou ficar por cá alguns dias.

- Ah, estou a ver. Fizeste muito bem, claro, a família é importante. E então, já tens um namorado? – perguntou Adosinda, claramente sôfrega por detalhes. – Se tiveres, espero que não sejas como esta gente nova agora, que se juntam sem se casarem.

- Tenho um namorado, sim, mas não vivemos juntos – respondeu Rute, medindo as palavras. – Conhecemo-nos no ano passado e ele vive um pouco longe de mim, mas estamos a tentar que as coisas funcionem. Ah, estou a ver ali uma pessoa a acenar-me. Com licença.

Rute levantou-se rapidamente, caminhando na direção de uma pessoa que não conhecia de lado nenhum, só para conseguir fugir a Adosinda, antes que ela lhe fizesse um interrogatório completo. Novamente sozinha, Adosinda levantou-se e caminhou até junto de Elvira. Lançou um olhar para a cara de Albertina e achou que mesmo na morte e com todas as pinturas que lhe tinham sido colocadas na cara, ela continuava a ser bastante feia.

- Isto está bom para o seu negócio, não é verdade? - perguntou Adosinda, olhando para Elvira. O seu tom de voz era ácido, pois já há muito tempo que as duas mulheres não se davam bem, desde que houvera uma festa da igreja, que ambas tinham querido organizar. As duas tinham discutido, Elvira acabara por conseguir organizar a festa, visto que quase todos os anos era Adosinda que o fazia e a outra mulher nunca lhe perdoara. A igreja era algo seu e não queria que Elvira se metesse nos assuntos de lá. - É sempre a faturar. Parece que o pessoal aqui de Vale das Angústias anda a cair como tordos.

- Pois é, quem sabe se você não é a próxima - disse Elvira, encarando Adosinda.

A beata lançou-lhe um olhar aborrecido e só controlou a língua porque o padre Rodolfo se levantou e passou perto delas e ela não queria que ele ouvisse mais do que devia. Adosinda gostava de picar as pessoas e conseguia fazer surgir o que havia de pior nelas. Uma vez, tinha irritado tanto a dona Teresinha da mercearia, que a mulher tivera um ataque de coração e tivera de ser levada de emergência para o hospital, onde acabara por se salvar por um triz. Adosinda tinha ficado uma semana inteira sem sair da igreja, rezando sem parar para obter o perdão de Deus.

- Eu ainda estou muito rija e não me vou assim sem mais nem menos - disse Adosinda, quando o padre se afastou. Estava bastante séria e com os olhos a dardejar. - Ainda vou durar muitos anos.

- Isso também dizia a Albertina, enquanto cortava bifes no talho, mas agora olhe, deu-lhe um ataque de coração e pumba, foi-se, finou-se, bateu as botas, portanto pode acontecer a qualquer um - disse Elvira. - Ainda por cima, Adosinda, como tem uma língua venenosa, se a morde ainda é capaz de cair aí morta, devido ao veneno. Mas não se preocupe, que depois eu arranjo-lhe um caixão bem à sua medida.

- Ai, você é mesmo má pessoa - disse Adosinda, benzendo-se. - Você é que tem uma língua venenosa. Isso não se diz a ninguém.

- Adosinda, vá mas é dar uma volta e não me aborreça - disse Elvira, fazendo um gesto para a enxotar. - Estou farta de a ouvir. É como uma mosca que anda aqui à minha volta a fazer barulho. A diferença é que infelizmente mesmo que eu lhe dê com um mata moscas, a Adosinda não morre.

Aborrecida, Adosinda afastou-se de Elvira. Enquanto isso, Honório, dono do café da aldeia, acabou por se levantar e mudar de lugar, sentando-se ao lado de Lindolfo, o filho de Elvira. Os dois cumprimentaram-se vagamente. Lindolfo costumava ir algumas vezes ao café de Honório, mas os dois não tinham grande confiança um com o outro, apesar de Honório o conhecer desde pequeno. Lindolfo tinha alguma confiança com o neto de Honório, Sebastião, que ficara a tomar conta do café, enquanto o avô ia ao velório. Honório seguiu o olhar do homem mais novo, que estava pousado na viúva Guiomar, que conversava com uma mulher, a um canto. Depois, Honório voltou novamente a atenção para o filho de Elvira.

- Pareces preocupado, rapaz - disse ele, abanando ligeiramente a cabeça. - Alguma coisa em que te possa ajudar? Desde que não me peças dinheiro emprestado, claro. A última pessoa que me pediu dinheiro emprestado, acabou por fugir do país usando esse mesmo dinheiro e a partir daí aprendi a não emprestar dinheiro a ninguém. Nem à minha própria mulher, senão ela não teria tido dinheiro para fugir do país.

- Acho que não me pode ajudar em nada, Honório - respondeu Lindolfo, encolhendo os ombros. - Acho que… acho que apenas tenho de aceitar o meu destino, em como vou ficar sozinho a minha vida toda. Ou então continuo a viver em casa da minha mãe, como até agora, o que, pensando bem, é muito deprimente.

Honório abanou a cabeça e pousou uma mão no ombro de Lindolfo. Tendo já setenta anos e tendo nascido e crescido em Vale das Angústias, conhecia muitos dos habitantes e tinha opinião formada sobre todos. Sendo dono do café da aldeia, passavam por lá muitas pessoas, que por vezes soltavam a língua sobre a sua vida, mas Honório não se envolvia nos mexericos que ali eram contados ou na vida dos outros. Normalmente, Honório mantinha as suas opiniões para si próprio, mas sempre achara que Lindolfo era um pobre coitado, vivendo na sombra da mãe e não tendo espaço para viver a sua própria vida.

- O que é que se passa, afinal? - perguntou Honório. - Podes falar comigo, se quiseres. Não te obrigo a dizeres-me nada. Foi também o que disse à minha mulher, quando já andava desconfiado que ela me metia os palitos. E ela não abriu a boca, pelo menos não antes de atravessar a fronteira com o meu dinheiro e com o amante. Só depois é que me ligou. Mas isto não é sobre mim. Que conversa é essa de ficares sozinho?

- Nenhuma mulher me quer - respondeu Lindolfo, lançando um olhar a Guiomar, que conversava de forma animada, quase como se não estivesse num velório. - Nenhuma…

Honório olhou novamente na direção para onde Lindolfo olhava e depois percebeu a que é que Lindolfo se estava a referir. Abanou a cabeça, compreendendo a situação. A viúva atraía os olhares de muitos homens e muitos se tinham perdido de amores por ela. Parecia que Lindolfo não ficara imune aos seus encantos. Honório achava que Guiomar parecia ser boa pessoa, mas o facto de já ter perdido quatro maridos deixava-o um bocadinho de pé atrás e tentava não se misturar muito com ela. Honório costuma tentar arranjar namoradas ao neto, mas nunca sugeriria Guiomar como uma hipótese sequer.

- Rapaz, é melhor mesmo manteres-te afastado da viúva - avisou o homem mais velho, baseando-se no seu conhecimento das mulheres e do que sabia sobre Guiomar, em particular. - Conheço-te desde pequeno e sinceramente não te quero ver a ires para a cova antes de mim, que já sou velho.

- Mas eu não mando no coração. E o meu coração parece que está preso à viúva…

- Eu percebo que a viúva tem os seus encantos, tanto que já encantou quatro maridos e outros tantos homens, mas ela não é mulher para ti. Tu mereces melhor e alguém que não tenha um passado complicado como ela tem.

- Dizem que não é possível escolhermos quem amamos e é verdade. Eu não escolhi gostar dela, mas a verdade é que gosto muito - disse Lindolfo. - E agora que ela está viúva outra vez, se calhar há esperança de ela poder finalmente olhar para mim com outros olhos… senão, fico mesmo sozinho e abandonado. Qualquer dia, quando a minha mãe morrer, fico a viver numa casa cheia de gatos, por exemplo.

Honório suspirou, mas resolveu não dizer nada. Lindolfo parecia estar realmente apaixonado pela viúva e se por um lado se sentia derrotado por ela não olhar para ele, como para a maioria dos outros homens, por outro tinha esperança de que isso viesse a acontecer eventualmente. O padre Rodolfo, que andara a falar com todos, aproximou-se de Rute, que estava agora a um canto, mas de pé. Ele tinha boa memória e recordava-se dela, que costumava ir à missa aos domingos, quando estava na aldeia, mesmo que só o tivesse feito algumas vezes na vida.

- Bons olhos a vejam. Fico feliz por a ver por aqui, apesar de não estarmos no melhor local para alguém estar feliz – disse o padre. Rute percebeu que ele arrastava as palavras. Havia o boato de que o padre gostava de beber e ao que parecia, estava bêbado naquele momento. – Espero que no domingo venha à missa.

- Lá estarei – prometeu Rute.

- Ainda bem, assim é que é. Os jovens deviam interessar-se mais pela igreja, mas estão a deixar de ir à missa. Até mesmo os mais velhos o estão a fazer, como a Augusta, que depois de me confessar que andava a trair o marido e eu lhe ter dado penitência, nunca mais pôs os pés na igreja.

- Senhor padre, não é suposto dizer-me o que alguém lhe disse em confissão – disse Rute, olhando para o padre com atenção.

- Oh? Pois foi, disse algo que não devia, não foi? De vez em quando acontece. A semana passada, sem querer, revelei que a Albertina, agora falecida, tinha em tempos tido um aborto. Felizmente, só o disse a um pároco que é mudo.

Rute não soube o que dizer. O padre não devia estar a espalhar os segredos das pessoas, mas claramente o álcool fazia com que se sentisse mais desinibido e acabasse por revelar mais do que devia. O padre pareceu ficar com o olhar ausente e depois afastou-se. Cambaleava ligeiramente, não devido à idade, mas sim por ter bebido duas garrafas de vinho antes de ir até ao velório. Ao dar um passo, desequilibrou-se um pouco e foi contra Adosinda, que fora acender uma vela e a tinha nas mãos, estando perto do caixão de Albertina, mas no lado oposto a Elvira. Com o embate, a vela saiu a voar pelo ar e caiu dentro do caixão. Por um segundo, todos ficaram quietos, mas depois chamas irromperam do caixão.

- Ai credo! - gritou Adosinda, a plenos pulmões. Levou as mãos à cabeça. - O caixão pegou fogo!

- Ai meu Deus, até na morte a minha querida Albertina está em brasa - disse o marido de Albertina, limpando uma lágrima do canto do olho.

- Alguém que apague o fogo! Tragam um extintor! - gritou Elvira, alarmada e agitando os braços no ar. - Depressa, antes que a mulher fique cremada!

O coveiro Plácido apressou-se a ir buscar o extintor e apagou o fogo, mas no processo o corpo da Albertina do talho ficou coberto de espuma do extintor. As pessoas aproximaram-se do caixão, de boca aberta com o que tinha acontecido. Sofia escondeu um sorriso, mas pelo menos aquilo fora algo diferente dos velórios normais. Pegou no telemóvel e, discretamente, tirou uma fotografia à morta, naquele estado. Qualquer dia até podia ser motivo de gargalhadas. Elvira olhou para os familiares de Albertina.

- Eu não aceito devoluções do caixão - avisou ela, bastante séria e num tom que não admitia qualquer tipo de discussões. - Portanto, se quiserem outro, têm de o comprar, que a vida está má. É a economia que temos.

Enquanto Elvira falava com os familiares, Adosinda agarrou no braço do padre Rodolfo e saíram os dois da casa mortuária. Adosinda suspirou, abanando a cabeça. Apesar de ser bastante devota e ter sempre defendido o padre e escondido o seu problema de alcoolismo, as coisas estavam a tornar-se cada vez piores. Com o passar dos anos, o padre estava a ficar mais desleixado. Rute seguiu-os, silenciosamente e manteve-se a alguma distância.

- Senhor padre, viu bem o que fez? - perguntou Adosinda. - Foi contra mim e a vela que eu tinha voou para dentro do caixão. O corpo da Albertina do talho podia ter ardido por completo!

- Pronto, assim a família poupava na cremação - disse o padre, revirando os olhos.

- Mas ela não vai ser cremada, senhor padre, vai ser enterrada no cemitério - disse Adosinda. - Mais um bocadinho e tínhamos ficado com uma Albertina torrada. Não pode ser, senhor padre. O senhor padre esteve outra vez a beber, não esteve?

- A beber? Eu?

- Sim. O senhor deve ter bebido vinho ou cerveja e…

- Nunca! Pela graça de Deus nosso senhor, eu só bebo água da torneira e nada mais. Nem uma só gota de pinga me entra pela boca adentro - disse o padre Rodolfo, mentindo com os poucos dentes que ainda lhe restavam na boca. - Estou sempre muito sóbrio, Adelaide.

- Adosinda, senhor padre, o meu nome é Adosinda.

Rute conseguia ouvir tudo o que dizia e era claro que Adosinda tinha razão e o padre estava bêbado. A beata conduziu o padre até à sua casa, que ficava apenas a duas ruas de distância, pelo que não demoraram muito tempo a chegar lá. Adosinda estava exasperada com o padre Rodolfo, mas ele em breve deixaria de dar missas, sendo substituído pelo novo padre, o padre Nuno Mendonça. Adosinda não aprovava realmente o padre mais jovem, mas sempre era melhor do que o velho padre bêbado.

Crime em Vale das Angústias

Na manhã do dia seguinte, realizou-se o funeral. Sofia tinha pensado ir para a escola com a boleia de um vizinho, pois não tinha qualquer interesse em ir ao funeral de Albertina, mas acabara por mudar de ideias, visto que queria ver uma determinada pessoa. O padre Rodolfo ia à frente da procissão, enquanto os familiares de Albertina levavam o caixão e as outras pessoas iam atrás. Um pouco afastado do padre Rodolfo, seguia o padre Nuno. Ele tinha apenas vinte e sete anos e estava há cerca de seis meses na aldeia para, depois de algum tempo de aprendizagem, substituir o padre Rodolfo nas suas funções. O padre Nuno era alto e tinha cabelo castanho encaracolado. Na noite anterior, tinha aparecido na casa funerária já bastante tarde, visto que tivera afazeres dos quais tratar, enquanto o padre Rodolfo estivera fora nessa noite.

Quando chegaram ao local onde iria ser enterrado o corpo, já a cova estava aberta e o coveiro Plácido estava parado, com uma pá na mão, à espera que lhe fosse dada a indicação de que era altura de fechar a cova. O padre Rodolfo começou a recitar algumas frases sobre Albertina, apesar de se ter enganado algumas vezes no que ia dizer. De manhã, tinha bebido uns copitos de vinho e já se faziam sentir os efeitos.

- Ai que o senhor padre deve estar com a pinga outra vez - pensou Adosinda, preocupada. - Isso faz com que a igreja seja olhada de lado. Onde é que já se viu, um padre que às vezes anda bêbado? Ai meu nosso senhor Jesus Cristo, faz com que o padre tenha juízo, pelo menos até ser substituído. O padre Nuno parece-me demasiado novo, mas ao menos não bebe.

Pouco depois, começaram então as lamúrias de uma mulher, completamente vestida de preto e tapando a cara com um lenço. Era Maria Luísa Lemos, uma mulher de trinta e poucos anos, que trabalhava em parceria com a funerária de Elvira, fazendo o serviço de carpideira nos funerais. Enquanto o padre falava, Maria Luísa foi fingindo estar a chorar e lamentou-se.

- Ai credo, meu bom senhor, levou a querida Albertina tão cedo. Ela que era tão boa pessoa. Ai meu Deus, coitada da Albertina, era tão nova!

Elvira, que estava de pé ao lado de Maria Luísa, deu-lhe uma cotovelada. Maria Luísa olhou-a e Elvira sussurrou que Albertina já tinha para cima de sessenta anos. Sofia lançou um olhar estranho à carpideira e a Elvira, pensando se conheceria quem era a carpideira, que aparecia em todos os funerais, mas que tapava sempre a cara com um lenço e um véu negro. Até Adosinda desconhecia quem a carpideira era, o que a deixava aborrecida, pois Adosinda era conhecida por saber um pouco sobre a vida de toda a gente da aldeia. Rute, que acabara por ser convencida a ir ao funeral também, ia passando os olhos por todos os presentes no funeral.

- Ai meu Deus, coitadinha da Albertina, que era velha mas rija e que agora bateu as botas. Ai, quem é que me vai cortar agora os bifes no talho? Quem é que vai escolher as miudezas de frango para eu comprar?

Elvira revirou os olhos. Mais valia que Maria Luísa estivesse apenas a fingir chorar, em vez de falar, porque as coisas não estavam a correr muito bem. Pouco depois, o padre terminou o seu sermão e o caixão foi descido à cova. As pessoas lançaram lá para dentro algumas flores. O marido de Albertina disse uma prece à esposa.

- Adeus Albertina, que descanses em paz - disse Guiomar, atirando um lírio para a cova. - E que no outro mundo não enganes as pessoas a dizer que aquilo era carne de coelho, como fizeste uma vez. Eu bem desconfiei que aquilo era gato e não coelho.

Guiomar voltou para o seu lugar e Lindolfo aproximou-se dela, entregando-lhe uma rosa vermelha. Guiomar olhou para ele, surpreendida e depois sorriu intensamente. Sofia olhou de Lindolfo para a mãe e cruzou os braços. Detestava que a mãe recebesse assim tanta atenção dos homens. Enquanto isso, Maria Luísa lançou uma flor para a cova e fingiu chorar pela morte da Albertina do talho.

- Ai, coitadinha da Albertina, que era tão boa pessoa. Vai cá fazer tanta falta - disse Maria Luísa. - Tanta falta que ela vai fazer neste mundo, meu Deus!

- Desculpe, mas conhecia bem a minha mulher? - perguntou o marido de Albertina, olhando para Maria Luísa.

A carpideira escondeu rapidamente a cara, para que não fosse reconhecida. Prestava os seus serviços de forma secreta, sendo que as únicas pessoas que sabiam a sua identidade eram Elvira e o seu filho. Era sempre melhor manter a identidade em segredo, pois não queria ser conhecida por andar a chorar em funerais.

- Conhecia-a muito bem - respondeu Maria Luísa, o que não era verdade. - A Albertina era uma pessoa tão bondosa. Sempre a pensar nos seus clientes e a querer vender tudo da melhor qualidade.

- Hum… pois, a minha mulher era mais ou menos assim - disse o marido de Albertina, apesar de não parecer muito convencido do que dizia. - Tirando o facto de às vezes vendermos carne de ratazana como carne de porco ou carne de gato como carne de coelho.

Maria Luísa arregalou os olhos e felicitou-se por normalmente ir comprar carne ao outro talho da aldeia, onde pelo menos tinha confiança na carne que comprava. Enquanto Maria Luísa se afastava da cova, Plácido, o coveiro, estava a olhar para Guiomar e Lindolfo. Plácido não estava nada satisfeito por Lindolfo ter dado a Guiomar aquela rosa vermelha e começou a caminhar para eles. Rute, que era observadora, vira a sua expressão aborrecida. Entretanto, ao avançar, Plácido deu um encontrão ao padre Rodolfo, que se desequilibrou e caiu dentro da cova.

- Ai credo! - gritou Adosinda, em pânico, chamando a atenção de todas as pessoas presentes. - O padre caiu na cova! Ajudem o padre!

O caos instalou-se, enquanto as pessoas tentavam tirar o padre Rodolfo da cova. Elvira teve de evitar começar a rir-se com aquela cena. O padre foi tirado da cova e não parecia muito afetado pelo que tinha acontecido, até porque devido a estar ligeiramente bêbado, nem se apercebera muito bem do que tinha acontecido. Honório pôs-lhe um braço à volta dos ombros.

- Venha lá padre, venha beber alguma coisa ao meu café.

- Beber? Está a falar de pinga? Com certeza que vou - disse o padre, parecendo animado. Depois olhou à sua volta e baixou a voz, pois Adosinda estava por perto. - Mas tem de ser pinga da boa, porque caso contrário não quero nada.

As pessoas começaram a ir-se embora e Plácido teve de fechar a cova com terra, pelo que não pôde falar com Guiomar ou Lindolfo. Elvira puxou o filho para si, afastando-o da viúva. Não ficara nada satisfeita com o que o filho fizera e agora os seus piores receios estavam confirmados, visto que o filho parecia realmente ter uma paixoneta pela viúva. Mas aquela não era a melhor altura, nem o melhor local para falarem. Enquanto caminhavam para a saída do cemitério, Elvira elevou a voz.

- Se algum dia precisarem dos serviços de uma funerária, não se esqueçam - disse ela. - Com a funerária Elvira Maria, a sua morte é a nossa alegria!

Enquanto as pessoas saíam do cemitério, Sofia indicou à mãe que tinha deixado cair um lenço seu e teria de voltar rapidamente para trás. Guiomar indicou que ficaria à espera da filha à porta do cemitério. Sofia afastou-se e quando percebeu que já não era possível verem-na da entrada do cemitério, contornou dois jazigos enormes. O padre Nuno estava à espera dela e sorriu ao vê-la aproximar-se. Ela quase caiu nos braços dele e os dois trocaram um longo beijo.

- Ontem senti a tua falta. Devias ter estado presente no velório, para nos podermos ter visto - disse Sofia.

- Lamento, mas não foi possível. O padre Rodolfo encarregou-me de fazer algumas coisas e só fui ao velório mais tarde. Tu já não estavas lá, nem a tua mãe - disse Nuno, abanando a cabeça.

- Entretanto, tenho de ir. A minha mãe está à minha espera à porta do cemitério e se demorar muito, pode começar a desconfiar - disse Sofia, parecendo algo aborrecida. - Detesto que tenhamos de nos ver às escondidas, mas se as pessoas soubessem, tentariam separar-nos. Mas em breve eu vou atingir a maioridade e quando isso acontecer, tu desistes de ser padre, fugimos os dois aqui da aldeia e poderemos ser felizes juntos.

Continua…

Termina assim o primeiro capítulo, em que tirando a Albertina do talho, mais ninguém morreu. No próximo capítulo, Rute irá dar uma volta pela aldeia e acontecerá um homicídio que chocará todos os habitantes.