Capítulo 2: O Crime

Ao jantar, na casa de Elvira, o clima estava bastante tenso. Rute não queria realmente meter-se no assunto, mas Elvira e Lindolfo estavam aborrecidos um com o outro, depois de uma conversa que tinham tido à tarde, quando tinham regressado do funeral de Albertina. Elvira estava completamente contra o facto de o filho querer aproximar-se da viúva e Lindolfo, que pensara bastante no assunto, queria tentar a sua sorte, pois achava que podia ser feliz com ela.

- Ela já teve quatro maridos e todos morreram! – exclamara Elvira, tentando chamar o filho à razão. – E ainda para mais, tem dois filhos, um já adulto e a outra quase. Há raparigas solteiras com quem podes ter um futuro, mas não com a Guiomar.

- Mãe, a vida é minha e eu faço o que quiser – dissera-lhe Lindolfo.

Os dois tinham discutido, no interior da funerária e mesmo estando no piso acima, Rute conseguira claramente ouvir as vozes alteradas deles. Depois, ao final da tarde, aparecera Plácido, o coveiro. Elvira tinha saído para ir comprar coisas para o jantar e Rute ficara com o primo na funerária. Plácido entrara de rompante e aproximara-se do outro homem. Nem reparara em Rute, que estava a um canto, vendo um catálogo de urnas. Apontara um dedo ao peito de Lindolfo.

- Lindolfo, venho dizer-te para te afastares da Guiomar. Já percebi que tu andas de olho nela, mas ela não é para o teu bico. Afasta-te e deixa-a em paz - dissera Plácido, com um tom de ameaça na voz.

- E porque é que eu iria fazer isso? Que eu saiba, a Guiomar é uma mulher descomprometida atualmente, portanto se eu quiser conquistá-la e ela me aceitar, não tens nada a ver com isso - dissera Lindolfo, libertando-se do aperto que Plácido lhe estava a fazer no braço. - Eu sei que a conseguirei fazer feliz. Mas talvez tu te sintas ameaçado. Querias ficar com a Guiomar para ti.

- Eu e ela já namorámos antes e éramos felizes. Agora que ela está livre, é altura de ficarmos juntos novamente. Tu consegues arranjar outra mulher qualquer, mas a Guiomar é minha. Eu estive sempre perto dela para apoiar e tu não. Eu e ela somos perfeitos um para o outro.

- Ai são? Então diz-me lá porque é que quando vocês namoravam, há já imensos anos, ela te deixou para namorar com o Francisco Januário e depois se casou com ele? Se vocês fossem felizes e ela gostasse mesmo de ti, tinham ficado juntos e ela não te tinha trocado por outro.

Plácido ficara furioso e apetecera-lhe esmurrar Lindolfo, mas depois reconsiderara. Se lhe batesse, provavelmente Guiomar acabaria por saber do sucedido e iria pôr-se do lado de Lindolfo. Plácido avisou-o mais uma vez para ele se afastar, mas Lindolfo indicou-lhe que não. Rute aproximou-se e ao reparar nela, Plácido pareceu ficar mais contido, pois havia agora uma testemunha do que ele dissera.

- Não vou desistir da Guiomar por nada deste mundo - dissera Lindolfo, encarando-o. Lindolfo nunca fora corajoso, mas por Guiomar, enfrentaria tudo e todos. - Podes tentar conquistá-la, é problema teu, mas eu não me afastarei e no que depender de mim, serei o próximo marido dela e ficaremos juntos até morrermos.

- Então pode ser que morras em breve.

- Ei, já chega de ameaças! – exclamara Rute, decidindo intervir a favor do primo. Apontou para a porta da funerária. – Vá-se embora, agora mesmo. Não tem nada de vir aqui ameaçar o meu primo, nem lhe dizer de quem é que ele pode gostar ou não.

Plácido acabara por ir embora, mas a determinação de Lindolfo não cedera. Quando a mãe voltara, ele contara-lhe que Plácido fora ali ameaçá-lo, o que deixara Elvira ainda mais descontente. Agora, ao jantar, Elvira e o filho mal se tinham falado. Logo que acabara de comer, Lindolfo levantara-se da mesa, dizendo que tinha algo a fazer e saíra de casa. Elvira suspirara, aborrecida.

- Quanto mais estiver contra a relação, mais o Lindolfo se vai virar contra si, tia – disse Rute, terminando de comer o restante que tinha no prato e olhando para a tia. Elvira era boa cozinheira, mas naquele dia a comida não estava particularmente saborosa, provavelmente porque tivera a cabeça ocupada com a zanga com o filho e não prestara grande atenção à preparação da comida.

- Mas não posso deixar que ele conquiste a viúva. Primeiro, provavelmente nem conseguirá, mas se conseguir, vai acabar morto, como os outros quatro antes dele. Não, não posso deixar que isso aconteça ao meu filho. A Guiomar gostava de ser caçada como uma perdiz, mas o meu filho não é para ser caçado por ela.

- Mas acha que a Guiomar teve alguma coisa a ver com a morte dos quatro maridos? – perguntou Rute. Era fã de livros polícias e aquele tema era algo que lhe interessava. Conhecia Guiomar bastante mal, apenas de vista e reputação, ela parecia inofensiva, mas nunca se sabia.

- Nunca se provou que ela tivesse nada a ver com a morte deles, caso contrário agora estaria a apodrecer numa prisão qualquer, mas ainda assim, é muito estranho. Um marido morto, acontece. O meu também morreu e eu ainda aqui ando. Mas quatro? É demais, até a porca torce o rabo.

- Tia, como é que morreram os maridos da Guiomar?

- Considerando que fui eu que tratei de todos os funerais, lembro-me perfeitamente das circunstâncias que levaram os quatro desta para melhor. O primeiro marido, o Francisco Januário, morreu num acidente de viação, saiu da estrada e foi embater numa árvore. Teve morte imediata. Foi uma trabalheira para pôr o cadáver como deve ser, porque ficou muito danificado. E a flatulência que ele lançou depois da morte? Tivemos de evacuar a casa funerária, que não se aguentava lá com o cheiro – disse Elvira, abanando a cabeça. - O segundo marido, o Rogério Fonseca, o pai da Sofia, aquela rapariga jovem que estava no velório e no funeral, morreu devido a uma alergia, quando estava doente. Tomou comprimidos com algo a que era alérgico e morreu antes de poder pedir ajuda. Andava sempre com a cabeça metida nos livros. Uma vez até me lembro que ele ia a andar e a ler ao mesmo tempo e foi contra um poste. Até lhe saltou um dente e tudo!

- Pois, muito interessante tia, mas e os outros dois?

- O terceiro marido, o Ulisses Reinaldo, morreu num incêndio no seu escritório. Esse era estrangeiro, mas era muito bonito. Tinha uns olhos azuis que pareciam de um golfinho. Qualquer mulher ficava apanhada por ele. E o quarto marido, o Casimiro Lopes, foi encontrado morto ao ser esfaqueado, num beco da aldeia. Suspeita-se que tenha sido uma tentativa de assalto. A polícia foi chamada e investigou durante algum tempo, mas não encontrou o culpado. Esse era podre de rico, um homem de negócios, que a Guiomar conheceu quando estava de férias. Veio atrás dela até aqui e por cá ficou. Mas era feio como breu. Apesar de não terem sido encontrados indícios contra a Guiomar, ainda assim, na mente de algumas pessoas, ela tinha tido algo a ver com a morte de pelo menos alguns dos maridos. E eu sou uma das pessoas que pensa assim também.

Rute ficou pensativa. Quatro mortes, de quatro formas diferentes. Uma delas fora claramente um homicídio, enquanto as outras podiam não ter sido. Perguntou à tia, em relação ao incêndio, se tinha sido algum curto circuito ou fogo posto. Elvira respondeu-lhe que não se tinha conseguido comprovar, pois o incêndio destruíra tudo e nem mesmo os bombeiros podiam dar a certeza absoluta de uma coisa ou outra.

- Portanto, como podes ver, traz muitas dúvidas e não quero o meu filho envolvido com uma possível assassina. Claro que eu lido com ela, é uma cliente que paga sempre, mas não a quero muito próxima de mim e ainda a quero menos próxima do teu primo. Porque é que ele não arranja alguém que não tenha já quatro maridos mortos? – perguntou Elvira, exasperada. Pousou os seus talhares no prato. – A tua mãe disse-me que agora tens um namorado e que no ano passado ajudaste a resolver um crime.

- Tenho um namorado, sim, chama-se Gustavo Alenquer. E pode dizer-se que ajudei a resolver crimes no ano passado, não só um, mas vários, em Santo Antonino. Foi lá que conheci o Gustavo – respondeu Rute. Depois, suspirou, parecendo um pouco cansada. – Só é complicado pelo facto de vivermos longe um do outro.

- Ora, tu trabalhas para uma revista de viagens, não é assim? Não podias mudar-te para junto do teu namorado e continuares a fazer o teu trabalho na mesma?

Rute respondeu que era uma possibilidade. Isso já lhe tinha passado pela cabeça, mas era algo que tinha de ponderar bem e que também não dependia apenas dela. Gustavo era querido e gostava do tempo que passavam juntos, mas também estavam muito tempo separados. Talvez gostassem um do outro por estarem juntos por tempo limitado. Claro que as viagens que teria de fazer, para o trabalho, iriam sempre limitar o tempo na mesma, mas seria diferente viver com ele. E também não queria impor-se, a dizer que iria mudar-se para a sua casa, sem ele demonstrar algum desejo de que tal acontecesse. Mas não queria falar de si própria, pelo que decidiu mudar o assunto.

- Tia, ontem no velório, o padre estava bêbado – disse Rute, pensativa. Levantou-se da mesa e ela e a tia começaram a levar tudo para a cozinha. – E ouvi a Adosinda a falar com ele, no exterior. Aparentemente, tem acontecido algumas vezes.

- É verdade. Apesar de ele o negar, obviamente que bebe bastante. É um bom padre, mas não está na sua melhor forma agora. Mas em breve vamos ter um novo padre, o padre Nuno. O padre Rodolfo vai para um lar de idosos, onde vai estar vigiado e não vai poder cometer excessos.

- Fiquei preocupada porque ele me falou de algumas coisas que as pessoas lhe disseram em confissão – disse Rute, colocando os pratos no lava-loiças. A tia olhou-a. – Acho que como estava bêbado, se esqueceu de que tinha de guardar segredo e isso parece-me grave. Imagine que ele revela segredos complicados, que lhe contaram em confissão? Pode gerar grande confusão.

O semblante de Elvira ensombrou-se um pouco e pareceu preocupada com a perspetiva. O padre estava na paróquia há muitos anos e já ouvira confissões de todos, várias vezes. Sabia muita coisa e se começasse a revelar o que sabia, podia ser grave. As duas terminaram de arrumar a cozinha e foram para a sala, mas Rute notou que a tia ficara pensativa. Perguntou-se que coisas teria a tia confessado ao padre e se ele se lembraria delas, para um dia, acabar por dizer o que sabia, sob o efeito do álcool.

Crime em Vale das Angústias

No dia seguinte, na loja de antiguidades de Guiomar, ela estava a terminar de arrumar uma prateleira, enquanto a sua filha Sofia estava de braços cruzados perto dela. As duas estavam a conversar, mas a conversa não era exatamente amigável, sendo sobre os pretendentes de Guiomar.

- É uma vergonha andares a receber assim presentes dos homens - disse Sofia, abanando a cabeça. - O Casimiro não está morto nem há três meses!

- E que culpa tenho eu se os homens me acham irresistível e decidiram enviar-me presentes? - perguntou Guiomar, com um bibelô na mão, colocando-o no respetivo lugar. Recebera um ramo de flores de Plácido e uma caixa de bombons de Lindolfo. Ficara deliciada, mas a sua filha não reagira da mesma forma. - Não posso impedir que eles o façam.

- Mas podias dizer que não querias presentes, que ainda estás de luto pelo teu último marido e que para já não queres mais homem nenhum. Mas tu não fazes isso. Já usas roupas claras, andas animada e ficas toda contente com cada presente que recebes. Isso não é normal, mãe. Quatro maridos e procurares um quinto, não é normal!

- Quer dizer, os meus maridos morrem e só por isso devo ficar para sempre sozinha? - perguntou Guiomar, encarando a filha. - Não é justo. Sabes que eu não gosto de estar sozinha e com cada perda me sinto pior. Quero um homem ao meu lado, para me dar amor e carinho. Claro que gostava do Casimiro, mas ele já não está cá e não vale a pena andar por aí a chorar pelos cantos.

- Não vale a pena conversar contigo - disse Sofia, exasperada. - Tu só vês o que queres. Felizmente que daqui a duas semanas vou finalmente fazer dezoito anos. Depois disso, a minha vida vai mudar, podes ter a certeza.

- Ó querida, mas vai mudar como? Não é como se deixasses de ir às aulas, de viver comigo ou que tivesses dinheiro para mudar nada. Lá por atingires a maioridade, não quer dizer que te tornes independente. Devias ter noção disso - disse Guiomar, abanando ligeiramente a cabeça. - E quanto à festa de anos? Não devias já ter convidado alguns dos teus amigos e...

- Não quero festa nenhuma. Já sei que vão lá aparecer imensos homens para te ver e tu vais ser só sorrisos. É uma vergonha e eu não quero isso. Prefiro não ter festa nenhuma!

Sem dizer mais nada, Sofia saiu de rompante da loja de antiguidades, deixando a mãe para trás. Respirando fundo, ela caminhou pelas ruas da aldeia. Estava mesmo muito aborrecida com a mãe e ao contrário do que Guiomar pensava, Sofia não planeava continuar em Vale das Angústias por muito mais tempo. Apesar de ser arriscado, Sofia decidiu que queria ver Nuno e dirigiu-se à igreja da aldeia, que ficava num grande largo. Por essa altura, Rute dirigia-se para lá também, decidindo que queira ver o padre. Não esperava que ele lhe dissesse nada de importante, se estivesse sóbrio, mas ainda assim queria falar com ele. Sofia entrou por uma porta lateral e encontrou o padre Nuno a acender algumas velas. Ao vê-la, ele aproximou-se rapidamente.

- O que estás aqui a fazer, Sofia? - perguntou ele, olhando à sua volta, com receio de que alguém os visse, mas não havia ninguém na igreja naquele momento.

- Estava aborrecida e tinha de falar com alguém. Queria ver-te, também. Eu sei que podem apanhar-nos, mas...

Nuno abanou a cabeça e indicou a Sofia para o seguir. Rute entrou na igreja nesse momento e viu-os a saírem por uma das portas das traseiras, que dava para um pequeno pátio fechado, com algumas árvores e um banco de pedra. Sentaram-se os dois ali. Acometida pela curiosidade, Rute seguiu-os e ficou junto da porta. Sabia que não devia estar a ouvir a conversa dos outros, mas o seu instinto de jornalista estava sempre ativo. A mãe, por vezes, dizia-lhe que era metediça, mas ela não queria saber. Sofia agarrou numa das mãos do padre Nuno e sorriu-lhe por o ter por perto.

Ela nunca gostara de religião e quando, meses antes, a mãe a obrigara a ir à missa, não ficara satisfeita. Nesse dia, o padre Rodolfo tinha apresentado o padre Nuno a todos, indicando que ele seria o seu sucessor. Na altura Sofia, achara-o muito atraente e considerara que era um desperdício que ele fosse para padre. Então, começara a comparecer mais vezes na missa, apenas para o ver. A determinada altura, Sofia fora confessar-se, sabendo que naquele dia era o padre Nuno a ouvir as confissões.

Falara-lhe das dúvidas na sua vida e que as pessoas por vezes cometiam erros, no sentido de tentar ver se o padre estava realmente convicto da sua vocação. Ele não se descaíra. Quando Sofia saíra do seu lado do confessionário, acabara por entrar no outro lado, sobressaltando o padre Nuno. Acabara por o beijar e ele ficara perplexo. Mas depois não conseguira de deixar de pensar naquilo.

Já tinha reparado em Sofia, visto que além dela haviam apenas outras duas jovens com menos de vinte anos em Vale das Angústias, Cornélia e Serafina, mas ambas bastante feias. Uma delas, no Verão, tinha um part-time de espantalho nos campos agrícolas de uma quinta. O padre Nuno pensara e pensara, até que acabara por perceber que realmente estivera equivocado na sua vocação. Não queria ser padre e deixar os prazeres carnais e o amor de uma mulher de lado. Procurara Sofia e tinham-se beijado mais uma vez. Nuno decidira que iria abdicar do sacerdócio por ela, mas Sofia parara-o naquele momento.

- Se deixares de ser padre para namorares comigo, aqui em Vale das Angústias, as pessoas não te irão perdoar ou aceitar. Farão da tua vida um inferno e da minha também. A dona Adosinda e as outras beatas não deixarão de falar e a minha mãe não vai aceitar - dissera Sofia, convicta. - O que teremos de fazer é sair daqui. Quando eu fizer dezoito anos, vamos embora os dois, para qualquer outro lado e assim poderás então abdicar de ser padre, num local onde ninguém nos conheça e nos julgue. Podemos ir para a Serra do Bigode ou A-da-Bigorna.

E assim fora. Os dois começaram então a encontrar-se às escondidas, para que ninguém soubesse do seu envolvimento. Numa ou duas ocasiões, quase tinham sido apanhados, mas tinham conseguido inventar desculpas para o seu comportamento. Ambos esperavam a data dos dezoito anos de Sofia para mudarem a sua vida e essa mesma data estava muito perto.

- Tive uma espécie de discussão com a minha mãe - disse Sofia, suspirando e olhando para Nuno. - Por causa de ela já ter pretendentes e estar a considerar casar outra vez. Já se casou quatro vezes, portanto é altura de parar. Ela não percebe como é que isso me afeta e como as pessoas a veem ou então não se importa. Mas eu importo-me... se bem que também não vai fazer diferença. Daqui a duas semanas, já estaremos longe daqui e não quero saber se a minha mãe se casa novamente ou não. Até pode casar com um fardo de palha, que não me interessa.

- Ainda assim, não devias aborrecer-te com a tua mãe - disse Nuno. - Afinal, se vamos embora, talvez passe bastante tempo até que voltes a vê-la novamente. Não gostaria que partíssemos convosco uma chateada com a outra.

- E o que importa? Mesmo que vamos embora e eu não esteja aborrecida com a minha mãe, assim que ela perceba o que se passou, vai ficar furiosa, portanto não vai fazer grande diferença - disse Sofia, mudando depois de assunto. - Já compraste os bilhetes de comboio?

- Sim, já comprei. Já estou a tratar também do aluguer de um quarto, com o dinheiro que tenho de parte. Depois, quando estivermos em Monte Branco, teremos de arranjar trabalhos para nos sustentarmos. Não sei se isso não será algo mau para ti. Ainda estás a terminar o secundário e assim os teus estudos...

- Não quero saber. Quero estar contigo e quero sair desta aldeia horrorosa - disse Sofia, com convicção. - Detesto tudo aqui. As pessoas, a vida, os mexericos, as mortes. Tudo. Quero afastar-me. Parece que há aqui alguma maldição que mata as pessoas e traz infelicidade.

Rute estava pensativa. Então o novo padre andava metido com uma adolescente e estavam a planear fugir quando ela tivesse dezoito anos? Olhando para o padre, Rute calculou que ele teria mais de vinte e cinco anos e portanto, era estranho estar a namorar com uma jovem que ainda nem chegara à maioridade. Aliás, era contra a lei. Mas era verdade que o amor não escolhia idades e ele estava a aguardar até ela fazer dezoito anos, para depois poderem fugir juntos. Quando atingisse a maioridade, Sofia podia fazer o que quisesse.

Rute tentou colocar-se no lugar da outra jovem e não conseguiu. A mãe dela já tivera quatro maridos e Rute perguntou-se como Sofia os veria. Visto ser fruto da relação do segundo casamento, ela conhecera três homens na vida da mãe e talvez os tivesse considerado a todos figuras paternais, mas não queria mais nenhuma. Nuno passou uma mão pela cara de Sofia e beijou-a. Rute hesitou entre recuar e ir embora ou esperar para ver se ouvia algo mais interessante.

- Sofia, não quero aborrecer-te mais, mas é muito estranho a tua mãe ter tido quatro maridos e todos terem morrido. Na semana passada, quando eu estava a ouvir as confissões, a tua mãe recusou-se a confessar comigo, só o faria se fosse com o padre Rodolfo e isso deixou-me a pensar. É como se tivesse algo a esconder e só o pudesse partilhar com alguém que já sabia do que se tratava.

- A minha mãe não tem nada a esconder. Nuno, ela pode parecer suspeita, mas eu sei que a minha mãe nunca matou ninguém. Apesar de tudo, ela é boa pessoa. Claro que podes pensar que estou a dizer isto porque ela é minha mãe, mas eu sei o que estou a dizer. Eu conheço-a melhor que ninguém.

- Diz-me, quando morreu o primeiro marido da tua mãe, os travões não estavam danificados, pois não? - perguntou Nuno.

- Não, estavam perfeitamente bem - respondeu Sofia.

- E quando o teu pai morreu, quem é que poderia ter entrado em casa e trocado os comprimidos dele?

- Trocado? Nuno, ninguém trocou os comprimidos do meu pai. Estavam lá em casa, mas ele como estava doente, não se deve ter apercebido de que estava a tomar os comprimidos errados. Ele era farmacêutico, conheceria os comprimidos se não estivesse doente e tivesse reparado melhor. Ainda hoje penso que se eu ou a minha mãe tivéssemos estado em casa nessa tarde, poderíamos tê-lo acudido e ele ainda poderia estar vivo...

- Mas não é possível que outra pessoa tivesse lá entrado? Talvez quando vocês as duas não estivessem em casa e só estivesse lá o teu pai?

- Suponho que é possível... aliás, algumas pessoas visitaram o meu pai. A dona Elvira era amiga dele e lembro-me que no dia anterior trouxe-nos uma canja de galinha. A dona Adosinda também passava lá algumas vezes, mas mais para coscuvilhar que outra coisa. E o padre Rodolfo foi ver o meu pai uma ou duas vezes. O Honório do café e o Plácido também. Que eu me lembre, mais ninguém esteve lá em casa nos últimos dias de vida do meu pai, mas também já foi há muito tempo.

O padre Nuno abanou a cabeça lentamente. A morte do pai de Sofia poderia ter sido um acidente, mas também talvez não o fosse. Várias pessoas tinham tido oportunidade de ir à casa e trocaram-lhe os comprimidos. Já o acidente do primeiro marido de Guiomar parecia ter sido mesmo um acidente. Contudo, o incêndio que matara o terceiro marido podia ter sido fogo posto e obviamente que alguém matara o quarto marido de propósito, esfaqueando-o. Qualquer pessoa poderia ter feito isso. Rute apreciava a forma como o padre Nuno colocara as coisas e concordava com as ideias dele.

- Não quero falar mais da morte do meu pai, nem da morte de ninguém - disse Sofia, abanando a cabeça. - Esse assunto está arrumado. A morte do meu pai foi um acidente e a dos outros maridos da minha mãe, sinceramente, não quero saber.

Sofia aproximou-se para dar um beijo a Nuno, quando ambos ouviram um barulho. Alarmada, Sofia levantou-se e correu a esconder-se atrás de uma árvore. Rute virou-se, pois o barulho vinha de dentro da igreja e viu que era Adosinda. Hesitou e depois saiu rapidamente para o pátio. Não queria ser apanhada à porta. O padre Nuno olhou-a, percebendo que ela estivera ali e ouvira pelo menos alguma coisa. Poucos segundos depois, Adosinda apareceu, trazendo um cesto com velas na mão.

- Ah, padre Nuno, está aqui. Eu vinha trazer estas velas que o padre Rodolfo me pediu. Você estava aqui a apanhar um bocadinho de ar? E a Rute também aqui está? – perguntou Adosinda, ficando com um ar algo desconfiado.

- Vim visitar a igreja e conhecer o novo padre – disse Rute, mantendo uma expressão serena.

- Vir à igreja foi uma boa ideia, claro. E aqui apanha-se bom ar. Apanhar ar nunca fez mal a ninguém, exceto à Maria Papoila, que morreu porque se engasgou quando engoliu uma bola de pelo que andava no ar e morreu. Foi um ar que se lhe deu! Bom, desculpem, mas preciso que o padre Nuno venha comigo e me diga onde é que quer que eu ponha estas velas.

Nuno acenou afirmativamente e seguiu Adosinda, lançando um último olhar a Rute e outro para onde Sofia se tinha escondido. Felizmente, Adosinda não a vira, caso contrário ela poderia desconfiar e antes que dessem por isso, já toda a aldeia saberia o que se estava a passar entre eles. Sofia saiu detrás da árvore e encarou Rute.

- Você ouviu o que nós estávamos a falar, não ouviu? – perguntou Sofia, de forma algo hostil.

- Ouvi, sim, mas não te preocupes, não vou contar nada a ninguém, porque é sobre a vossa vida e não me diz respeito – assegurou Rute, mas o olhar de Sofia não foi menos gelado do que antes. – Peço desculpa por ter estado a ouvir, mas sou curiosa por natureza. Eu… pronto, eu sei que acabei de dizer que não me diz respeito, mas tens a certeza quanto a envolveres-te com o padre? Ele é mais velho do que tu e vão ter problemas pela frente.

- Nós gostamos um do outro, portanto conseguimos ultrapassar seja o que for.

Rute não disse mais nada e Sofia passou por ela, voltando a entrar na igreja. Quando era mais jovem, Rute tivera uma paixoneta por um professor, mas nunca se envolvera realmente com ele. Esperava que Sofia tivesse sorte. Voltou a entrar na igreja e já não viu nenhum dos outros. Perguntou-se se o padre mais velho andaria por ali, até que o viu, a sair por uma porta. Caminhou para ele, benzendo-se ao passar em frente ao altar da igreja.

- Olá – disse o padre, ao vê-la. – É a sobrinha da Elvira. Então, afinal veio aqui mesmo sem ser ao domingo. Gosta de como está a igreja? Temos tomado bem conta dela, tirando ali a estátua da virgem santíssima, que no ano passado caiu do pedestal e partiu a cabeça, mas colocámo-la com cola tudo e agora está fina.

- Eu vim vê-lo, para saber como estava. Podia ter-se magoado, depois de ter caído na campa, no dia de ontem.

- Eu estou perfeitamente bem. As dores que tenho, são mesmo da idade. Quando era novo, andava a carregar caixas de madeira de um lado para o outro. Chamavam-me Rodolfo, a rena, está a perceber? – perguntou o padre, com uma gargalhada. – Venha comigo, estava para ir beber um chá.

Rute aceitou e seguiu o padre por uma porta, que dava para um pequeno escritório, com estantes de ambos os lados da parede. O padre explicou que era ali que ficavam os registos de casamentos, batizados, funerais e outros ritos da igreja. Havia uma grande secretária de madeira escura e depois de ir buscar um bule com chá e duas chávenas, o padre sentou-se atrás da secretária, enquanto Rute se sentava à sua frente. Serviu o chá para os dois. Agora que estava frente a frente com ele, a jovem sentiu-se vacilar. Queria perguntar-lhe pelo seu problema com o álcool, mas não parecia adequado fazê-lo.

- Quando assistir à missa no domingo, será uma das últimas que darei – disse o padre, bebendo um pouco do seu chá. Rute aguardou que o seu arrefecesse mais um pouco. – Em breve, irei deixar de dar a missa e abandonarei a paróquia. Vou ter saudades, mas é altura de dar lugar a outro.

Rute não soube o que dizer. Agora sabia que o padre Nuno não iria ficar por ali por muito tempo e se o padre Rodolfo ia embora também, teriam de encontrar outra pessoa, mas decerto que algo se iria arranjar.

- Beba o seu chá, menina, é uma mistura muito boa e na verdade, cara, que guardo só para mim e para visitas especiais. A dona Adosinda e o padre Nuno bem me pedem mais vezes estas ervas para o chá, mas são a minha pequena preciosidade. Tenho-as escondidas numa gaveta secreta na secretária, de que mais ninguém sabe, caso contrário, já não haveria folhas de chá para ninguém – disse o padre, sorrindo ligeiramente.

- É muito bom – disse Rute, bebendo um pouco do chá, que era realmente delicioso, mas ainda assim estava demasiado quente para o seu gosto.

- Ainda bem que gosta. Mas voltando ao que eu estava a dizer, são muitos anos a carregar com a paróquia às costas, com as missas, as cerimónias, as feiras de donativos e tudo o mais. E claro, a ouvir as confissões – disse o padre. Suspirou. – No velório da Albertina, disse coisas que não devia. Lamento se a choquei, mas quando bebo… por vezes perco o controlo de mim. Não gosto de mentir e é pecado fazê-lo, mas também não consigo admitir o problema que tenho, pelo menos, não abertamente. Mas você não é da terra, não me julgará como os outros. Estou cansado, Rute. É Rute, não é? Estou cansado de ter tudo às minhas costas. E as coisas que sei… por vezes deixam-me acordado à noite. Talvez seja para esquecer que tenho bebido mais.

- Está a dizer-me que as confissões que recebeu, lhe deixaram um peso na consciência? – perguntou Rute. Os dois não viram uma figura que se tinha aproximado da porta entreaberta. – Por ter de guardar os segredos dos outros?

- Sim. Nunca ninguém me disse que era algo tão difícil de fazer. Por mais que reze, as coisas não desaparecem da minha memória. Tenho andado a pensar muito no assunto. Por um lado, tenho o meu dever, o voto de manter em segredo as confidências que me fazem, mas por outro, há coisas que sei que deveria revelar, porque fazem a diferença.

- Que tipo de coisas?

- Para já, não posso dizer – respondeu o padre, bebendo o restante do seu chá. – Mas decidi que, antes de me ir embora, terei de contar a verdade sobre certas coisas. Não sobre ninharias, como quem roubou a galinha da vizinha ou quem está a pensar fazer uma plástica por ter uma cara feia, mas sim as coisas importantes.

A figura junto da porta agitou-se ao ouvir aquilo e depois afastou-se. Rute bebeu o seu chá, devagar, ouvindo o padre. Devia ser realmente difícil saber segredos dos outros e não os poder contar. Como jornalista, ela estava habituada a obter informação e divulgá-la, se bem que conseguia manter segredos pessoais, se assim quisesse. Depois de alguns minutos, despediu-se do padre, deixando-o pensativo.

Crime em Vale das Angústias

No café de Honório, o movimento mantinha-se de manhã e de tarde. Logo ao nascer do dia, recebia pão e bolos. De manhã e à tarde, os cafés saiam muito bem e ao início da noite, começava a servir as bebidas alcoólicas, normalmente aos mesmos clientes que estavam no café todas as noites. Antigamente, havia um outro café na aldeia, mas acabara por fechar, quando uma inspeção encontrara ninhos de ratos a viverem na cozinha e heras a crescerem dentro das casas de banho. Sendo agora o único café, Honório tinha sempre muito que fazer.

Naquela tarde, o café tinha algumas pessoas. A um canto, estava um velhote a ler um jornal. Adosinda estava sentada a uma mesa, com uma das suas amigas beatas. Maria Luísa entrara e pedira uma sandes mista. Vinha do seu emprego do dia a dia, trabalhando numa loja de costura. Nem sempre tinha trabalho, por isso precisava do dinheiro que ganhava como carpideira, para se sustentar a si própria e ao filho. Rute entrou no café pouco depois e olhou à sua volta. Pouco mudara, desde a última vez que lá entrara.

- Ora, ora, há muito tempo que aqui não vinha – disse Honório, quando Rute se aproximou do balcão. – Não tivemos oportunidade de falar no velório e no funeral da Albertina. Como é que está?

- Está tudo bem, obrigada, senhor Honório. Hoje decidi dar uma volta pela aldeia e lembrei-me de vir aqui – respondeu Rute, olhando para a montra de bolos, que àquela hora já estava meio vazia. Apontou para um bolo e Honório colocou-o num prato.

Os dois ficaram a falar durante algum tempo e de forma subtil, Honório perguntou a Rute se ela era solteira. Ela respondeu que não era casada, mas tinha um namorado. Apesar dessa informação, Honório não pareceu perturbado e puxou para si um jovem que estava a ajudá-lo. Era o seu neto, Sebastião. Ele tinha 28 anos, cabelo castanho e era bastante alto. Pareceu embaraçado por o avô o apresentar e estar claramente com outras ideias. Rute sorriu ligeiramente.

- Desculpe o meu avô – pediu Sebastião, quando o avô teve de ir atender um cliente. – Ele está sempre a tentar atirar-me para os braços de alguma mulher, para ver se me casa.

- Lá isso é verdade – concordou Maria Luísa, que continuava ao balcão e acabara de comer a sua sandes. – Já perdi a conta das vezes em que ele tentou que nós os dois fôssemos sair juntos.

- Não tem mal – disse Rute. – Mas eu tenho namorado e portanto, não estou interessada. De qualquer forma, prazer em conhecê-lo, Sebastião. E a si… por alguma razão, a sua voz não me é estranha.

Maria Luísa ficou alarmada. Tentava sempre fazer uma voz diferente, quando estava a fazer o seu papel de carpideira, mas por vezes saiam algumas coisas com a sua voz normal e ela não queria ser reconhecida. Lembrou-se que Rute estivera no funeral de Albertina. Maria Luísa indicou que tinha de ir embora e abandonou o café. Quando Rute ia a fazer o mesmo, Adosinda levantou-se e foi até ela, nos seus passos pequenos, mas determinados.

- Fiquei surpreendida de a ver na igreja, ainda mais a falar com o padre Nuno – disse ela, num tom meloso. – O que achou dele?

- Pareceu-me um jovem… dedicado – respondeu Rute, sem querer comprometer-se e ter de mentir.

- Sim, parece ser ajuizado e ter jeito para a religião. Poderá dar um bom padre, mas espero que não tenham falado de nada que não fosse respeitável. Eu sei que você vem de uma cidade grande e provavelmente tem na cabeça ideias muito modernas, mas aqui em Vale das Angústias, somos tradicionais. Não queremos por cá revoluções mentais, nem alguém a aproximar-se demasiado de um padre.

- Adosinda, se me permite, eu não dei ideias nenhumas ao padre e se tivesse dado, não era da sua conta – disse Rute, ficando aborrecida com as palavras da outra mulher, que a abordara, só para a estar a criticar. Adosinda abriu muito a boca, parecendo surpreendida. – Você pode querer saber da vida dos outros, mas não se vai meter na minha. O que falei com o padre Nuno não lhe interessa, portanto, agradecia que de futuro não viesse importunar-me. Eu não tenho ideias modernas, que ando por aí a espalhar, portanto agradecia que você não tentasse forçar em mim as suas.

- Ai credo, você também não precisa de falar assim e ser rude.

- Quando certas pessoas insinuam que pode haver algo de impróprio entre mim e o padre, só posso reagir assim. E já agora, que estamos numa de críticas, você tem um nariz que parece uma galinha.

Rute passou pela mulher mais velha e seguiu pela rua, com passadas determinadas. A jornalista estava habituada a lidar com pessoas chatas e até podia considerar que por vezes ela própria era assim, metediça, mas Adosinda não a conhecia de lado nenhum, para a tentar acusar de meter ideias na cabeça do padre. Rute sorriu ligeiramente. Mal Adosinda sabia que o padre já tinha ideias suficientes na cabeça. Não era necessário ser ela a colocar-lhe mais.

Crime em Vale das Angústias

Já era de noite, quando Lindolfo entrou no cemitério. Ficara muito contente quando um bilhete fora deixado debaixo da porta da funerária e descobrira que o bilhete era de Guiomar. Ela pedia-lhe para eles se encontrarem, à noite, na parte de trás do cemitério e para ele não falar do encontro a ninguém. Lindolfo achara aquilo algo estranho, o local, mas o facto de se ir encontrar com Guiomar deixara-o muito animado. Jantara rapidamente, mentira à mãe dizendo que ia ao café e depois saíra em direção ao cemitério. Avançou por entre as campas e jazigos. Visto trabalhar na agência funerária, não lhe faziam diferença. Lindolfo caminhou até ao fundo do cemitério e parou ao ver uma cova aberta. Tirando o funeral de Albertina, não se lembrava de ninguém ter morrido e que fosse necessário abrir uma cova. Enquanto tentava perceber o que se passava, Lindolfo não viu alguém aproximar-se. No momento seguinte, Lindolfo foi atingido com uma pá na cabeça e caiu ao chão. Sangue começou a escorrer-lhe da ferida que surgira na sua cabeça e Lindolfo virou-se. Estava uma noite de lua cheia e conseguia ver-se relativamente bem. Ali, de pé e com uma pá na mão, estava Plácido.

- És mesmo totó. Achavas mesmo que a Guiomar ia marcar um encontro contigo no cemitério? Foi mesmo fácil escrever aquele bilhete e assinar com o nome dela. Eu sabia que não ias desconfiar - disse Plácido, estreitando os olhos. Lindolfo tentou levantar-se, mas Plácido ergueu a pá para o atingir novamente e Lindolfo ficou parado. - Eu disse-te para te afastares da Guiomar, mas tu não queres, portanto tens de desaparecer.

- O que é que estás a dizer? Estás doido? - perguntou Lindolfo, confuso e com bastantes dores na cabeça.

- Não estou doido. Estou a lutar pelo que quero, isso sim. A Guiomar sempre foi a mulher da minha vida. Namorámos na adolescência, mas ela trocou-me pelo Francisco Januário. Tive de engolir o meu orgulho e aceitar isso. Anos mais tarde, ele morreu naquele acidente de viação. Foi uma bênção para mim ou pelo menos foi o que pensei. Pensei que agora que ela estava viúva, eu a conseguiria conquistar. Mas em pouco tempo, o Rogério Fonseca conquistou-a e casaram-se. Fiquei furioso, mas aguentei. Até uma altura em que ele estava doente e soube que eles tinham discutido. Ele tratara mal a Guiomar. Fui vê-lo e discutimos um com o outro. Ele era farmacêutico e tinha muitos comprimidos em casa. Eu sabia que ele era alérgico a um componente de um deles, já mo dissera antes. Foi fácil misturar uma boa dose num chá. Entreguei-lhe a chávena e disse-lhe que fizera o chá para acalmarmos os ânimos. E ele bebeu-o. Não demorou muito tempo a começar a ter uma reação alérgica e eu fiquei a vê-lo morrer.

- O quê? Tu mataste o Rogério?

- Matei. E pensei mais uma vez que a Guiomar seria minha, só que surgiu aquele estrangeiro horroroso e mais uma vez eu fiquei para trás. Quando se casaram, tentei seguir com a minha vida mais uma vez. Mas ele era arrogante. Um dia, achei que bastava. Reguei uma parte do escritório dele com gasolina e deitei-lhe fogo, não antes de o amarrar, para ele perceber que ia morrer. Voltei à carga, começando a rondar a Guiomar, mas foi o Casimiro Lopes que a conquistou. Pior, eu simpatizava com o Casimiro. Decidi que não o mataria. Tentaria encontrar outra mulher para mim, mas não consegui tirar a Guiomar da minha cabeça. Passaram anos até que eu decidi que ela teria mesmo de ser minha. Foi fácil emboscar o Casimiro e matá-lo, fazendo parecer que fora um assalto - explicou Plácido, com calma e até algum orgulho na voz. - E agora, eu ficarei com a Guiomar. Tem de ser. Não vou deixar que mais nenhum homem case com ela, a não ser eu próprio. Se não te tivesses metido no meu caminho, tudo estaria bem, mas assim, não vou deixar que me tentes roubar a mulher que eu amo.

Lindolfo disse-lhe que ele estava louco. Como é que podia ter matado três dos maridos de Guiomar? Plácido ficou muito sério e desferiu outro golpe com a pá. Lindolfo gritou de dor. Tentou levantar-se e fugir. Iria para longe de Plácido e faria queixa na polícia. Plácido seria preso pelo que fizera e ele, Lindolfo, conquistaria Guiomar. Plácido ergueu a pá para aplicar outro golpe, mas de seguida foi ele próprio atingido nas costas e gritou de dor. Virou-se e viu Rute, de pé com outra pá nas mãos. Ela atacou-o, acertando-lhe na cabeça. Plácido caiu ao chão, sem sentidos.

- Felizmente, a tua mãe convenceu-me a seguir-te, contra a minha vontade – disse Rute, pousando a pá no chão e ajudando o primo a levantar-se. – Estás bem?

- Não, mas vou ficar – respondeu Lindolfo. A cabeça latejava-lhe e continuava a sangrar. – Ele confessou ter matado três dos maridos da Guiomar.

- Sim, eu ouvi. E agora, vou chamar a polícia – disse Rute, pegando no telemóvel e marcando o número de emergência. – Fica de olho nele. Se se mexer, dá-lhe com a pá.

Crime em Vale das Angústias

De manhã, Vale das Angústias estava em alvoroço. O facto de Plácido ter sido levado pela polícia e ir ser acusado da morte de três dos quatro maridos da viúva Guiomar, era motivo para conversa em qualquer local na aldeia. Guiomar tivera um ataque de ansiedade, logo de manhã, quando soubera o que acontecera. Sofia também ficara chocada, mas depois de pensar um pouco, não era descabido que assim fosse. Plácido era uma presença constante na vida de Guiomar e ao que parecia, tivera segundas intenções e fizera o imperdoável para tentar ficar com ela.

Elvira ficara muito aflita com o filho, que fora levado para o hospital mais próximo, para ser observado. Felizmente, não partira nada e iria recuperar completamente. Os testemunhos de Lindolfo e Rute tinham sido muito importantes e ainda seriam mais, quando Plácido fosse levado a tribunal pelos seus crimes. Por toda a aldeia, as pessoas tinham opiniões sobre Plácido e o que ele fizera. Honório, que tentava evitar conversas, nunca esperara algo assim e dizia-o a quem quer que o quisesse ouvir.

Adosinda falara de pecados e de como Plácido iria para o inferno, por tudo o que fizera. Também culpara Guiomar, por ser uma oferecida e obviamente ter dado a volta à cabeça do homem. Maria Luísa e Sebastião, mais comedidos, não falaram à frente de outras pessoas, mas ficaram aliviados por um assassino ter sido preso. Mas apesar de tudo, outra situação iria abalar a aldeia nessa mesmo dia.

- Vocês nem vão acreditar no que acabei de ouvir – disse Elvira, entrando na funerária, a meio da manhã. Lindolfo quisera ir trabalhar, como sempre, apesar de ter um curativo na cabeça. Tentara falar com Guiomar, mas ela dissera que não estava em condições para tal, portanto ele decidira ocupar a cabeça com o trabalho. Rute, apesar de não perceber nada da funerária, ficara a ajudar o primo. Ambos olharam para Elvira, que entrara de rompante e parecia ofegante, como se tivesse vindo quase a correr. A última vez que Lindolfo a vira assim, tinha sido numa promoção de supermercado, em que ela esmurrara duas pessoas para levar o maior número de embalagens de queijo a que conseguiu deitar a mão. – O padre Rodolfo está morto. Encontraram-no na igreja, caído perto do altar, com um golpe na cabeça.

- Será que se desequilibrou? – perguntou Rute. – Pôs-se a beber e bateu com a cabeça?

- Poderia ser, mas a polícia diz que não, não há sangue em nenhum canto do altar e que o golpe foi feito por algum objeto, que não estava no local – respondeu Elvira, levando uma mão ao peito. – Ai, valha-me santo Piruças, padroeiro das coisas do além. Alguém matou o padre!

- Terá sido o Plácido? – perguntou Lindolfo. – Quer dizer, terá ele matado o padre antes de ir ter comigo, ontem à noite?

- Pelo que ouvi, o padre deve ter morrido perto das dez da noite e tu foste encontrar-te com o Plácido, sem saberes, às nove, portanto não pode ter sido ele. Temos outro assassino na nossa aldeia. Vale das Angústias está a tornar-se um daqueles locais das séries, onde acontecem crimes uns atrás dos outros. Ai, que horror… se bem que é bom para o negócio.

Elvira calou-se de seguida, o que não era costume para ela, que tinha sempre algo a dizer. Rute ficou muito séria. Perguntou-se quem poderia querer mal ao padre, mas a conversa que tinha tido com ele, no dia anterior, ainda estava bem presente na sua cabeça. O padre sabia segredos e queria revelá-los, antes de ir embora. E agora, estava morto, antes de poder revelar fosse o que fosse. Alguém lhe quisera fazer mal. Pouco depois, Rute saiu da funerária e foi até ao seu quarto. Tirou um bloco de notas da sua mala. A aldeia tinha muitas pessoas, podia ter sido qualquer uma delas. Claro que cabia à polícia descobrir o culpado, mas Rute estava determinada em investigar também. Decidiu que tinha de falar com as pessoas próximas do padre e talvez revistar as coisas dele. Poderia haver algo de interessante no escritório dele. Começou a anotar tudo o que tinha de fazer, para descobrir quem era o culpado ou culpada pela morte do padre.

Continua…

E chega assim ao fim o segundo capítulo. O Plácido foi revelado como o assassino dos maridos da viúva, mas ainda está por descobrir quem matou o padre Rodolfo e qual o motivo. No próximo capítulo, a história chega ao fim, com a Rute a investigar e desvendar o mistério, com o capítulo em primeira pessoa.